Eu sempre quis fazer mais para ajudar as pessoas em necessidade, sobretudo àquelas sofrendo com questões relacionadas à saúde [isso me faz lembrar que preciso tornar público de algum modo o desejo de ter meus órgãos doados quando morrer]. Enfim, certa feita eu estava participando de um congresso quando alguém ao microfone convocou os participantes a doarem sangue para o hemocentro da cidade. O grupo de pessoas com quem eu estava concordou em participar, e eu, imbuído desse espírito altruísta fiquei animadinho com o projeto. Acontece que foi no caminho para a clínica que eu me recordei do suplício que é para encontrarem minha veia e logo fiquei apreensivo. Senti que meu cérebro, que é um fofoqueiro dos diabos, já mandou recado via sistema nervoso central para a veia.
- Oh veia!
- Veia é a tua mãe!
- Eu disse vÊÊÊÊia…
- Fala!
- Lembra quando te furaram no ano passado?
- Lembro, e daí?
- Ouvi dizer que vão te furar já já…
A veia quando percebeu o burburinho resolveu se esconder atrás da articulação do cotovelo.
Não entrei em pânico porque imaginei que num hemocentro só trabalhariam profissionais especialistas que iriam encontrar a dita cuja na primeira tentativa. De fato esse pensamento fez brotar uma certa curiosidade em mim.
- Será que realmente a tal veia é difícil? Ou será que o pessoal é que não sabe coletar direito?
A veia murmurou:
- Sou difícil sim, dificílima. Desista dessa idéia!
Fomos todos entrando numa sala bastante iluminada com poltronas bem confortáveis. Havia dois caras já doando e eu reparei nos braços deles. As veias apareciam como rios nos mapas hidrográficos em alto relevo…
Já sentado na poltrona, olhei para meus braços e pensei:
- Você está ferrado! Seu braço parece uma berinjela de tão liso.
O diretor do centro entrou, agradeceu o gesto nobre de todos os presentes e logo o pessoal começou a atender. O enfermeiro que me assistiu era um negão que parecia tanto com o Carlinhos Brown que eu cheguei a desconfiar se não era uma daquelas pegadinhas da TV. Dei uma olhadinha para os lados pra ver se não achava uma câmera escondida…
- Olá, tudo bem? Meu nome é Deusdete.
Com esse nome eu fiquei seguro que o cara era baiano! Mas, descartei a possibilidade porque ele falou DeusdeTe como os curitibanos falam leiTe quenTe…. nenhum baiano conseguiria falar um T como os curitibanos….
- Tudo sim. Deixa eu te dizer: minhas veias…
- … são difíceis de achar
- Como você sabe?
- Os medrosos falam isso…
Eu pensei cá [ou lá] com meus botões: - Será que na hora que ele começar a me espetar feito Indiana Jones em busca dos tesouros da veia perdida e não achar nada, ele também vai vir com aquelas piadinhas do tipo “não lhe disseram pra trazer a veia junto?”.
Dei um sorriso amarelo e emendei:
- Não sinto medo, mas sempre sofro quando vou fazer uma coleta de sangue…
- Sua veia está aqui, fácil fácil…
Garrote apertando, mão abrindo e fechando, seringa em posição e tchummmm! O filho da puta do Deusdete começou a suingar aquela agulha como se fosse o gambito de uma cuíca em meu braço. Só pra sacanear eu pensei em cantar aquela do Jair que diz: deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá vem pra cá o que que tem ? Eu não estou fazendo nada você também, faz mal bater um papo assim gostoso com alguém? Honestamente, depois dessa eu acho que ele deveria tentar a sorte como clone de Carlinhos Brown e cantar Água Mineral trepado num trio elétrico em Porto Seguro.
- Sueli, vem cá! Eu pensei: pediu arrego. Ainda bem que ele chamou a Sueli. Imagine se chama a Marisa Monte ou o Arnaldo Antunes.
Deusdete nessa altura do campeonato já havia perdido o ar altivo e não me fitava mais a cara. Sueli me olhou e perguntou: “Não lhe disseram pra trazer a veia junto?”. Eu que me considero uma pessoa educada com meu semelhante me limitei a sorrir, mas meu cérebro não poupou impropérios.
Depois do ritual já esperado da troca de braço, e infinitas estocadas, finalmente encontraram a veia.
No final fui informado gentilmente pelo diretor do hemocentro que devido ao caráter de urgência e da necessidade de procedimentos rápidos no processo de doação de sangue, que, infelizmente, eu não poderia ser aceito no cadastro de doadores. Em outras palavras: nunca mais apareça aqui!
Ironia…
Nota: Exceto pelos nomes, todos os fatos relatados no post são 100% verídicos!
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Parabens pelo blog!
Estou enviando esse site pois acredito ser muito pertinente com o assunto
trioeletrico.net.br