Toque Nervoso

ModelodeBoteco

1905datebuttonDecepção amorosa é coisa semelhante a soluço e a pneu furado, ou seja, já aconteceu com quase todo mundo. As reações podem ser diversas e algumas são até bizarras. O Jorginho, depois que a Marion o trocou pela Bernadete, começou com um tique nervoso. Volta e meia, sem qualquer aviso prévio, sem distinção de local, berra uma palavra qualquer que começa com a letra M.

–         Mercenário!!!

–         Jorginho, pelo amor de Deus, quer parar com essa doideira? Você ainda me mata de susto! Olha o pessoal todo olhando pra cá. Assim eu vou cancelar essa nossa cervejinha de sexta aqui no Portuga!

–         De susto me matou aquela infeliz. Porque eu morri, Avelar. Eu amava a Marion e ela foi me trocar logo por outra mulher!

–         Fala baixo, Jorginho. Toca pra frente como fez o seu Otelo da floricultura que montou um salão pra Carmelita, pagou a plástica nos peitos, e ela fugiu com um caminhoneiro.

–         E o que foi que ele fez? Se matou?

–         Não. Está viajando por Portugal, vendo ares novos.

–         Meu dinheiro só dá para ver os ares de Cubatão, Avelar.

–         Pois vá, porque ouvi falar que não está mais poluído por lá.

–         E como vai você e a Veridiana?

–         Sólido feito uma rocha. Aquela mulher é louca por mim.

–         Mentira!!!

–         Como assim mentira? O que é que você sabe que eu não sei? Pode contar Jorginho!

–         Não, não… você não entendeu… eu…

–         Eu entendi muito bem! Eu disse que a Veridiana é louca por mim e você disse que é mentira.

–         Não é isso Avelar. Você sabe desse meu tique…

–         A Veridiana eu mantenho aqui a cabresto. Não dá um passo sem me avisar. Ela está na aula e logo chega aqui…

Aí chega o Tobias, o garçom mais desastrado da casa, tentando equilibrar 3 pedidos numa só bandeja. Desde o dia em que ele acertou a cabeça de um turista alemão com um escondidinho de tatu, a turma das mesas por onde ele passa aprendeu a usar o cardápio de couro ecológico como forma de capacete de proteção.

–        Ô Avelar, telefone pra você – grita o Tobias, segurando a tulipa que quase vira em cima do Tadeu do Opala.

A moça da mesa ao lado que foi testemunha ocular no dia em que o alemão ficou a noite toda com um saco de gelo na cabeça, preferiu levantar a correr o risco de ver arruinada a escova de chocolate que havia feito. Enquanto isso o Avelar falava com a Veridiana sob o olhar implacável do Portuga que ficava tiririca quando usavam o telefone do bar.

–        Avelar?

–        Você vem pra cá ou não vem, Veridiana?

–        Sabe o que foi, benzinho? A minha prima quer que eu durma na casa dela para ajudar a enrolar brigadeiro para a festa do afilhado …

Enquanto isto ouve-se ao fundo o Jorginho berrando o que não se sabe ser um tique ou um toque:

–        Migué!!!

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