O dia em que fui algemado

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Acho que o título deste post já deixou muita gente interessada. Alguns devem pensar: “eu sabia que havia algo de errado com esse Ivan”. Outros, mais céticos quanto à minha capacidade de falar coisas sérias, devem achar que é alguma pegadinha. Pois bem, nenhuma coisa nem outra. Não há nada de errado comigo e isso não é um chiste. Eu já fui algemado e trancafiado na cadeia.

Esta minha história é completamente verídica apesar das notas tragicômicas. Tudo aconteceu quando eu vivia nos EUA. A região em que eu morava no estado do Texas era chamada de Dallas/Fort Worth Metroplex, área constituída de vários municípios entre os quais o principal era Dallas. Para efeito de comparação, o Metroplex seria uma grande metrópole, e os diversos municípios seriam como os bairros dessa metrópole. Pois bem, era uma manhãzinha de outono e eu voltava de carro do trabalho, quando notei o giroflex do Ford Crown Victoria aceso atrás da minha minivan. Eu, sensatamente, parei o carro e aguardei que o policial se aproximasse. Por mais que não tivesse [aparentemente] o que temer, eu fiquei super apreensivo porque afinal de contas não é nada acolhedor para um estrangeiro, mesmo que legalizado, ser interceptado pela polícia. O policial me cumprimentou educadamente e me informou que a lanterna direita do freio não estava acendendo. Em seguida me pediu a carteira de motorista e o seguro do automóvel – documentos indispensáveis quando solicitados. Ele retornou para sua viatura e pediu que eu aguardasse no carro enquanto checava os meus documentos. Em poucos minutos ele retornou e me informou que uma das licenças do meu carro não havia sido paga há mais de um ano e que por conta disso um mandado de prisão havia sido expedido em meu desfavor e que ele iria cumprir esse mandado naquele momento.

–        Mas, mas… quer dizer, but, but… seu guarda eu não sabia nada disso, eu tenho esse carro há pouco mais de 7 meses…

–        Sir, please step out of the vehicle … senhor, saia do seu veículo…

–        but, but…

–        You have the right to remain silent. Anything you say can and will… O senhor tem o direito de permanecer calado, tudo o que disser pode e será usado contra…

Em poucos instantes eu estava algemado com as mãos para trás no banco traseiro do Crown Victoria. Apesar de estar atônito e com o choro engasgado, ainda assim tive suficiente curiosidade para reparar na parafernália tecnológica no interior daquele carro, e pensar com dó nas viaturas da polícia no Brasil. Aquele policial era do município de Irving e foi para a delegacia de lá que ele me levou. Tudo era muito moderno, como tudo no rico estado do Texas. As dependências eram extremamente limpas, climatizadas e funcionais. Lembro que o policial usou um controle remoto para abrir a porta da garagem e por ali entramos até o local onde fui fotografado, minhas impressões digitais foram colhidas, onde recebi roupas descartáveis, e um cobertor. Antes de me levarem para uma cela recebi a explicação de que a dívida deveria ser paga enquanto eu estivesse ali, que um juiz iria me ouvir se possível ainda naquele mesmo dia e que tinha direito a um telefonema.

–        Alô.

–        Ué, aonde você está?

–        Na cadeia.

–        Bobo.

–        Não, é sério. Um policial me parou porque… bla bla bla…. e você precisa descobrir que dívida é essa e pagar já.

–        Ai meu Deus!

–        Please, don’t cry... não chore e também não ligue para o Brasil pra contar para meus pais…

–        Tá, tá.. mas o que é que eu faço?

–        Ligue para o Brett, ou para a Pam Smith… eles te ajudam… ah, e não deixe as crianças saberem também.

–        Tá.

Na cela estavam mais duas pessoas comuns enfrentando problemas relacionados com documentação de trânsito. Eu as cumprimentei, deitei em posição fetal numa caminha fina feita em aço inoxidável, e chorei copiosamente. Mais tarde tive algumas surpresas, a começar pelo almoço que foi servido. Uma caixinha de McLanche Feliz! Isso mesmo! Apesar de não incluírem o brinquedinho, eu preferi não reclamar. A segunda surpresa é que fui informado que meu delito era contra o município de Dallas, e portanto, a juíza de Irving não poderia me ouvir e que eu deveria aguardar uma transferência para aquele outro distrito. Segundo o agente, Dallas já havia sido informado e que se eles não viessem me buscar até um determinado horário, eu seria solto. Mas, Dallas veio.

Fui algemado mais uma vez e colocado no banco traseiro de um Chevy Tahoe do ano. Pois é, homens não deixam de gostar e reparar em carros mesmo com as mãos presas. Num determinado instante, a sensação de humilhação e solidão me arrebatou de tal forma que eu comecei um choro compulsivo. A dor era tão grande que eu parecia não conseguir acompanhar o ritmo do meu choro e a respiração parecia ter perdido o compasso. Eu estava hiperventilando, ou seja a minha respiração estava mais rápida e mais profunda do que o normal. A sensação é assustadora, porque quando a gente hiperventila, o coração bate mais rápido, provocando palpitação e você tem a sensação de que lhe falta ar. Os braços, pernas e rosto formigam e podem ficar dormentes, porque você elimina gás carbônico em excesso durante a respiração. O policial no banco do carona sugeriu que eu me acalmasse… chill your ass down, dude… algo como aquieta essa rabo, mané!.. aí que eu quase HiperMegaUltraSuperVentilei…

Diferentemente do pacato distrito policial de Irving, as dependências do distrito de Dallas eram enormes e lembravam mais aquelas dos filmes hollywoodianos. O movimento era bem mais intenso e havia uma tensão maior no ar. No local de triagem para onde me levaram já não haviam apenas infratores de trânsito. O semblante, as roupas e o estilo de alguns detidos eram bem intimidantes e assustadores. Os procedimentos de Dallas eram diferentes dos de Irving. Lá eu teria que pagar uma fiança e então comparecer numa audiência que seria marcada posteriormente. Havia também a possibilidade de escolher pagar a dívida por meio do cumprimento de pena. Ou seja, cada dia preso reduziria duzentos dólares da minha dívida. Se eu devesse mil dólares eu poderia optar por ficar 5 dias presos e quitar meus débitos. Para a minha surpresa, descobri que muitas pessoas ali presentes haviam se entregado voluntariamente a fim de retomarem o crédito na praça. Pessoas com cheques devolvidos poderiam quitar a dívida dessa forma. Ouvi um sujeito dizendo que gostaria inclusive de ser transferido para uma penitenciária porque ali a redução diária do valor chegava a oitocentos dólares. Enfim, eu queria ir pra casa. Pelo horário eu já não podia mais pagar a fiança naquele dia e portanto precisei passar a noite ali. Obviamente, eu não consegui dormir.

Depois de tentar entender em vão como tudo aquilo estava acontecendo, eu me deixei levar pelo clima e, num determinado momento, assumi o meu estado de bandido e curti a noite ali com os manos da carceragem. Éramos um total de 9 caras acomodados numa cela enorme, que certamente comportaria uns 120, e no Brasil uns 1200. O grupo era diversificado em cor de pele, em idade e em delito, mas limitado à categoria de misdemeanor, isto é, crimes leves (apesar de que nunca entendi como é que eu poderia ser considerado tão perigoso quanto aquele cara que estava contando [e ensinando] a um grupinho na ala leste da cela o processo que usava para falsificar notas de 20).

Uma movimentação pelo corredor indicava que o jantar começava a ser servido – alguns dos detentos pareciam já ter passado por ali porque prontamente começaram a arriscar o cardápio. Eu me lembro de frutas um pouco machucadas, um copo bem pequeno com suco de laranja, e um bolo bem dormido. Alguns queixavam-se entre dentes, outros escolheram um cantinho pra comer em paz. Um galego com pinta de rapper Eminem ficou de olho no meu bolo. Eu, que não gostava de rap, nem de bolo dormido, entreguei o meu pra ele que nem sequer agradeceu. Um negão sentado numa mesa de ferro (não estava sentado à mesa) falou alguma coisa acerca da comida que provocou uma risada geral. Outros começaram a fazer piadas sobre a comida e o clima ficou festivo. Para tentar me enturmar eu contei que lá em Irving serviram uma Happy Meal (McLanche Feliz) com coca-cola. Maldita a hora em que eu abri a boca. Todos me deram uma olhada do tipo o que é que esse brasileiro idiota está dizendo? e tudo ficou silencioso. Até o momento em que o negão disse: Aint no fucking happy meal in Dallas.. here they give ya McShit, man! (tradução livre: Aqui em Dallas não tem essa porra de McLanche feliz… aqui eles servem McBosta, cara!)… a gargalhada foi geral!

Bem cedo pela manhã eu fui avisado que minha fiança havia sido paga e que eu poderia sair. Resumo da ópera, eu nunca mais comi um McLanche feliz, procuro sempre me inteirar das normas, procedimentos e leis de onde moro, e, depois de tanto tempo, me sinto livre da mancha do cárcere, da vergonha e do medo, para poder narrar essa experiência sem pudores e com um constante riso na cara.

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