Gracejos de Mico

cachorro mico

O sujeito era uma máquina de pagar mico e se chamava Uóxinton. O nome ficou Uóxinton mesmo, apesar da insistência 0206datebutton junedo tabelião em afirmar que a grafia estava errada. O pai queria o nome com U e acento grave, para honrar a memória do avô Uílxon que havia lutado na segunda guerra. A verdade é que o seu Uílxon havia mesmo é trabalhado num curtume em Realengo que fornecia matéria prima para a produção de coturnos.

Quanto aos micos, tudo começou muito cedo.

Ao participar na colônia de férias do clube com apenas 10 anos, tinha o hábito de caçoar das outras pessoas junto com outro menino chamado Geraldinho. Na festa de encerramento da colônia as famílias participavam da entrega dos diplomas e do almoço. Uóxinton e Geraldinho sentaram juntos e começaram a destilar veneno…

– Geraldinho, você viu a irmã do Silveira?

– Eu vi Uóxinton. É mais feia que banguela comendo farofa…

– Ela só não é mais feia do que aquela balofa fedorenta que passou agora pela gente…

– Uóxinton, aquela é minha mãe.

Uóxinton cresceu, e na mesma medida cresciam os micos. Aos 18 anos ele começou a namorar uma mulatinha baiana que era conhecida por ser fogosa e sobre a qual diziam as más línguas, ser mais rodada que velocímetro de Fenemê. Ele estava apaixonado e todo mês viajava com Suellen para visitar o pai dela que tinha um boteco pé sujo na região de Cachoeiras de Macacu. Eles sempre se encontravam na rodoviária bem em frente ao guichê da 1001 e compravam, religiosamente, os assentos 44 e 45, onde podiam, digamos assim, gozar de maior privacidade lá no fundão. Os dois viajavam apenas com dinheiro suficiente para pagar as passagens de ida, já que o pai de Suellen sempre lhe dava um dinheirinho que ela usava para, entre outras coisas, pagar as passagens de volta para o Rio.

– Cachoeiras de Macacu, poltronas 44 e 45, por favor!

– Quarenta e Nove Real!

Uóxinton deu uma nota de 50 e logo que saiu da fila foi abordado por um mendigo:

Chefia, me arruma uma mueda pá compretar a passagi?

Ele tinha bom coração e acreditando que não precisaria mais de dinheiro, resolveu dar o troco de 1 Real para o pedinte. Faltando ainda 30 minutos para a partida do ônibus, Suellen que era louca por Francisco Cuoco, aproveitou para assistir um pouco do último capítulo da novela Pecado Capital que estava rolando na tv da rodô. Num determinado momento, após sentir uma vontade incontrolável de ir ao banheiro, ela saiu correndo para se aliviar.

–  1 Real.

– Moço, eu sisforcei pra chegar aqui e não tenho dinheiro.

– De graça só no supermercado do outro lado da Avenida Brasil.

– Mas, moço…

De repente um berro ecoou quebrando todo o clima da novela que o povão assistia. Bem na hora que Salviano Lisboa ia beijar Lucinha enquanto o capanga de Sandoval dá um tiro em Carlão – tudo isso com fundo musical de Moça na voz de Wando …

– Uóxintooooon!!!!

Ao se inteirar da situação ele foi ficando tão nervoso que, por pouco, a necessidade não subia de 1 para 2 reais.

– O mendigo, Uóxinton…

– O que tem ele?

– Ele está com o nosso 1 Real.

– Mas, não é mais nosso, é dele!!

– Uóxinton, eu vou me obrar toda!

fantasia de festaE lá se foi o rei do mico atrás do mendigo tentando reaver o 1 real  que havia doado. O mendigo cooperou sem maiores resistências e chegou a perguntar se 1 era suficiente.

Outros micos foram acontecendo. Anos mais tarde já casado com uma loira oxigenada, descia no elevador do prédio com as duas filhas adolescentes quando entra o vizinho bonitão do terceiro andar com uma prancha de surf debaixo do braço. O garotão sarado era o mais desejado pelas meninas da rua – inclusive pelas duas que suspiravam no elevador. De repente, para querer parecer simpático, Uóxinton solta a pérola:

– Anda pranchando muito???

As filhas ficaram sem falar com ele por 10 dias. Onde já se viu? Todo mundo da rua ia saber que o pai delas ao invés de falar surfar, falava pranchar…

Numa certa ocasião, teve que ser removido do ônibus circular por paramédicos depois que caiu de costas no chão rasgando os fundos da calça que vestira sem o devido acompanhamento da cueca. Tudo isso porque o sujeito decidira se equilibrar sem o uso das mãos que estavam ocupadas atendendo o celular, pagando a passagem e acenando para um conhecido que avistara na rua – tudo ao mesmo tempo. Uma curva e: catapum! Mico! Essa mania de andar sem cueca já havia causado outras tantas saias justas. A esposa nunca se esqueceu do dia em que viu Uóxinton sentado no sofá com as bolas penduradas pra fora  no dia em que receberam a visita de uma cumadre que não viam há mais de 10 anos. 

Junte a isso a vez que ele virou atração para o grupo de aproximadamente 30 mulheres que participavam de um chá de panela no apartamento do prédio que ficava do outro lado da rua, em frente à janela do quarto dele. Ele tinha saído do banho quando ouviu o grito “um homem pelaaado!”, seguido de um coro histérico de “vai vai vai” e uma chuva de calcinhas [elas provavelmente estavam ouvindo o tal Wando]. Além de toda a confusão, o ocorrido ainda virou tema da próxima reunião de condomínio. Tem também a vez em que ele aprendeu a calcular o tempo exato em que iria explodir a bombinha que jogava do quinto andar para assustar a turma que passava na calçada do prédio. Só se livrou desse espírito incendiário quando uma faísca ateou fogo no cabelo dele levando-o a raspar a bela cabeleira e virar motivo de piada na escola.

Uóxinton era simplesmente o rei do mico.

O último relato de que se tem notícia acerca das peripécias desse pagador de mico foi justamente em seu enterro, embarassquando uma mulatona [de nome Suellen] se atirou aos berros de “me leva” em cima do defunto, justamente na hora em que o padre elogiava a vida pregressa de bom marido do então falecido.

Provavelmente, Uóxinton anda dando vexame em outra dimensão. 

Pagar mico é uma expressão que se originou de um jogo de baralho infantil em que cada carta corresponde à figura de um animal, com macho e fêmea, constituindo, assim, o par. Somente o mico não tem par. Formados todos os pares, o jogo termina e o perdedor é o que fica com a carta do mico na mão.

5 comentários sobre “Gracejos de Mico

  1. Realmente a questão “pagar mico”, tem inúmeras passagens na vida de cada um, pois duvido que não tenha ocorrido pelo menos uma única vez em vida de cada ser humano, tornando-se assim sempre um bom, motivo para contar-mos, ou não (risos), aos nossos descendentes. E sendo assim, haverão muitas boas histórias para contar , com a graça de cada qual, e seus incríveis “micos”.

  2. Li, ri… e cheguei a uma conclusão:
    Uóxinton (grande ser. rs) nasceu e desde então é regido pela Lei de Murphy.
    Ah …… não esqueça:
    O saco de jujuba só cai no chão quando ainda está cheio.

    Beijos… ( não tenho duvida; crônicas e a psicanálise andam de mãos dadas … RS)

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