… de passagem

Here_comes_Lippy_and_Hardy_by_Granitoons

dateuntitledViajar é sempre um barato. Adoro a sensação de ir, mas curto ainda mais a sensação de voltar. É muito bom ter um lugar de retorno. Na sexta quando fui para o aeroporto eu ainda não tinha me dado conta que estava viajando justamente numa semana em que acontecera um acidente aéreo. Veja bem, isso não quer dizer que eu seja totalmente alienado em relação ao mundo. Eu estava sabendo do acidente, mas procuro intencionalmente não ler, ouvir, ou ver a respeito de tragédias. Sinto que não devo carregar cargas que não me pertençam. Enfim, lamento pelas pessoas que não tiveram um lugar de retorno.

Eu que adoro reparar nos outros, aproveitei o ambiente para dar uma espiadela. Aliás, aeroportos são ótimos lugares para observar comportamento humano, sobretudo porque há uma glamorização enorme que afeta divertidamente o perfil de algumas pessoas. Por razão do acidente havia certa tensão no ar. Antes do embarque eu reparei que uma mulher ao telefone não parava de dizer ao filho o quanto o amava:

… filho, a mãe te ama, tá?…

… e não esquece filho, eu te amo…

… a mãe te ama demais, filhote…

Eu pensei no auge do meu sarcasmo costumeiro: “acho que vamos morrer”…

Na hora da decolagem eu lia na revista de bordo uma entrevista com a Adriana Falcão (não sabe quem é? Sinto muito, vai ao Google) quando comecei a ouvir as preces em voz alta do casal do banco de trás. Eu sei que é de praxe as pessoas ficarem mais conectadas com o Altíssimo quando vão subir a 10.000 m de altitude dentro de uma caixa hermeticamente fechada, mas aquele casal exacerbou: – “Ó Maria, Rainha do Céu, Nossa Senhora de Loreto, gloriosa Padroeira da Aviação, ergue-se até vós a nossa súplica…”. Depois dessa, eu juro que comecei a pensar [sem sarcasmo] que minha hora havia chegado.

O avião aterrisou tranquilamente e seguro.  Não me recordo de ter ouvido nem sequer um amém ou aleluia vindo do banco de trás [Vai ver que não precisavam mais de Loreto]. Todavia, na fila da direita havia um senhor com as mãos em posição de oração [com um Rolex de ouro no pulso], olhos fechados, lábios balbuciando uma prece, que parecia ter nascido de novo. Eu, e uma mocinha que também percebera o homem, nos entreolhamos como que dizendo: “O que se passa?” Enfim, o vôo foi quase uma experiência religiosa.

Eu não sou nada supersticioso. Pelo contrário, adoro provocar as superstições. Se vejo uma escada, passo por baixo, se pisam com o pé direito, eu piso com o esquerdo, não desviro sapatos emborcados, etc.

Acho esse lance de superstição uma espécie de Síndrome de Hardy, a hiena. Eu faço mais o estilo de Lippy, o Leão. Eu tinha um amigo – o João grandão – que era a personificação de Hardy: “Eu sei que não vai dar certo… Oh dia, oh céus, oh azar…” e por causa desse medo as coisas acabavam dando errado para ele.

O fato é que o medo da morte só não é mais comum que a própria morte. Eu, apesar de flertar com diversas correntes de fé, no fundo sou deveras conservador. Acredito em adão e Eva, céu e inferno, em dízimos e ofertas, etc. Acho também que a morte não estava no projeto original da criação do homem. A gente ia ser eterno na carne e por conta disso é que nunca nos acostumaremos com a idéia do óbito. Tomara que um dia o Senhor proclame um recall e todo mundo volte a ser imortal.

2 comentários sobre “… de passagem

  1. eu acredito …..se conseguimos andar sozinhos por cidades como Rio e SP, podemos encarar uma lata que voa …. (rs).
    Adorei o texto ….
    Que Nossa Senhora da Altissima Altura, olhe por nós.
    Bjs!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s