Vovô Confissão

1706datebutton juneQuando eu era moleque, nas férias de janeiro a gente sempre dava um jeito de passar umas boas semanas nas praias de Ibicuí. Éramos um grupo de meninos adolescentes quase todos com micose vovo confissãona virilha. Naquela época não existiam os cremes e pomadas que davam solução rápida a essas doenças de pele típicas de verão. Quando muito, usávamos uma solução que ardia tanto que era necessário o auxílio de um ventilador na hora da aplicação [posição de exame ginecológico e ventilador na velocidade máxima]. Na praia, só tínhamos uma alternativa: coçar muito sem nenhum pudor e, às vezes, até com certa dose de prazer. Aquela galerinha esparramada pelo chão da sala da casa do avô do Murilo coçava como se fosse um bando de babuínos Gelada nas montanhas da Etiópia [exceto que ninguém coçava a virilha um do outro]. Bons tempos.

O avô do Murilo era muito chato, mas recebia todo mundo muito bem naquela casa pé na areia. A gente colocou o apelido de Vovô Confissão porque ele vivia confessando tragédias.

– Murilo, desce daí ou você vai acabar quebrando a perna!

– Menino, não vai pro fundo ou você vai acabar morrendo afogado!

– Menino, calça um tênis ou vai acabar pisando num prego!

Salvo a morte de alguém, o saldo de pernas e braços quebrados, pés cortados, queimaduras de água viva, choques elétricos e caldos, era alto. Que boca tinha vovô Confissão.

Vovô também tinha a mania de fazer comparações entre o tempo dele e o nosso, e de empregar exageros com um toque fascista e nazista. Eu fiquei imaginando o vovô Confissão nos dias de hoje:

– Essa juventude de hoje dorme demais! No meu tempo, se eu dormisse até o meio-dia, minha mãe me arrastaria até um veterinário e mandaria aplicar uma injeção letal para eu dormir pra sempre! Aos domingos eu tinha que acordar no meio da noite para engomar minha camisa e gravata para ir à igreja às 7 da manhã e ainda dar tempo de lavar o carro do meu pai.

– Essa juventude de hoje xinga demais!No meu tempo, se eu falasse palavrão na frente do meu pai, ele cortaria minha língua com um abridor de cartas e me bateria até eu perder os sentidos! No meu tempo “piranha” era um peixe e não o nome que você usava pra chamar sua mãe se ela se recusasse a comprar um tênis de 600 reais. Uma pessoa dizia “merda” se a casa dela fosse levada por uma enchente e não quando respondia o que aprendera na aula de português daquele dia.

– Essa juventude de hoje não vai à igreja! No meu tempo, se dissesse a meu pai que eu não estava a fim de ir à missa, ele ia me espancar com o velho e o novo testamento e bater na minha cabeça com a queixada de um jumento! Hoje em dia eles acham que a igreja não é moderna o bastante porque não tem conexão Wi-Fi e não tem docks para plugar o iPod.  A juventude quer passar o domingo na cama, desrespeitando Deus e seguindo Britney Spears no Twitter.

– Essa juventude de hoje só pensa em sexo! No meu tempo, sexo era como jogar bola na pracinha com meu pai, ou seja, algo que era prometido para depois, mas que na verdade provavelmente não iria acontecer. Na minha época só existia uma posição e ela nem sequer tinha um nome. Não existia nada dessa insensatez de bate estaca, frango assado, parafuso, catapulta. A gente não precisa fazer alongamento para ter relações, ora bolas! Mas agora, esses moleques ficam se esfregando um no outro como se fossem uma matilha de cães em cio perpétuo para depois se gabarem no Orkut e no You Tube.  Quando menos esperarmos, eles vão começar a roçar em postes, hidrantes e em velhinhos inocentes que saírem pra uma caminhada na rua.

– Essa juventude de hoje só pensa em telefone celular! No meu tempo, os telefones pesavam uns 5 quilos e ficavam afixados na escrivaninha do pai. Nós jovens não tínhamos permissão para usar o telefone. Nunca! Ele servia apenas para emergências ou ocasiões especiais como a morte de um parente. Se eu dissesse para meu pai que eu queria carregar um telefone comigo por aí, ele ia mandar amarrar uma cabine telefônica nas minhas costas, me dar um chute na bunda e dizer para eu ligar pra ele quando eu chegasse ao inferno.

– Essa juventude de hoje só pensa em colocar piercings! No meu tempo, a gente não furava a orelha, a língua, mamilo ou qualquer outra coisa. Se nós quiséssemos nos mutilar era só conseguir um emprego na serraria e deixar a natureza seguir seu curso. Eles dizem que o piercing é uma forma de “liberdade de expressão” e de ser “diferente”, mas se esse é o caso por que é que todos usam? Se 600 milhões de jovens colocam um piercing na língua isso já não é liberdade de expressão, mas sim um caso de uniforme padrão. Se eles querem ser diferentes, eu sugiro que levantem as calças pra esconder a cueca, consigam um emprego, arranquem as argolas dos mamilos e joguem na lata de lixo. Se eu chegasse em casa com uma argola espetada no nariz, meu pai iria fazer três furos no meu crânio com um furador de papel e usar minha cabeça como bola de boliche.

Saudades do vovô Confissão!

4 comentários sobre “Vovô Confissão

  1. Image só o velhinho passando pela banca de jornal e batendo os olhos nos destaques da revista Nova: …Segredos para aumentar o prazer – 7 truques sexuais imperdíveis …Kama Sutra personalizado -Clique e encontre posições quentes, com desenho e explicação…Como ter 110 orgasmos em um dia….
    Sexo quentíssimo sempre – táticas para que a paixão entre você e seu querido continuar ardente. Aquecimento já!!!

    1. acho que ele iria pensar como eu: “o pessoal desse tipo de revista é uma espécie de Robinson Crusoe com suas milhares formas de se preparar e comer um coco”… rss.. .haja criatividade para uma manchete nova sobre sexo em cada edição… rssss… eu adoraria um “trabalho” assim!!!

  2. “Quando menos esperarmos, eles vão começar a roçar em postes, hidrantes e em velhinhos inocentes que saírem pra uma caminhada na rua.”
    Ué?? -E já não estão?? -Vi a noticia de alguem q ficou preso num banco de praça em função de algo assim e mais umas outras parecidas que não me recordo agora.
    Sobre todo o resto, eu concordo com vc apesar do seu exagero, me sinto como a mortadela do sanduiche pois acho q os direitos dos meus pais passaram para minha filha e eu nunca tive nenhum, por exemplo, eu ouvia as musicas que meus pais escolhiam, e agora ouço as que minha filha escolhe pq ela não gosta das minhas. Nunca tive direito a gostar ou a não gostar. O mesmo acontece em outras situações…
    Nossa, vc escreveu pouco, esse assunto é mto mais longo rsrs
    Desculpe pelo desabafo, meu comentario ficou maior que o post rs

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