O Porteiro

1906datebutton juneRaimundo, o porteiro do prédio do seu Batista, o parou para conversar na portaria. Por sorte não era um daqueles dias em que casa era sinônimo de banheiro, e o Batista pôde parar. Ele havia mudado recentemente com a esposa para um apartamento menor depois que casou a filha com um príncipe africano que a levou para morar em Burkina Faso. Raimundo é o mais antigo dos três porteiros que revezam na portaria 24 horas do prédio. Porteiros com mais de dez anos de casa acabam transformados em patrimônio do edifício, carregam aquele estigma de homem de confiança, mas, por outro lado, se tornam, por questões de encargos trabalhistas, um peso quase impossível de se livrar se houver a necessidade de corte na folha de pagamento. Os condôminos já haviam se reunido várias vezes para deliberar acerca da demissão do Raimundo, mas quando colocavam na ponta do lápis a quantia a ser paga pela rescisão do contrato, logo abortavam a idéia. Raimundo não era má pessoa, ele era “apenas” enxerido. Dona Alzira, a viúva do 602 quase tropeçou na escada quando o Raimundo perguntou, na frente da nora e do filho, quem era o coroa que desceu do apartamento dela na noite passada todo despenteado e com a roupa amassada. Em outra ocasião ele perguntou aos dois enfermeiros gays do 1003 quem era o “comido” e quem era o “comedor”. Isso para não mencionar as inúmeras vezes em que deu palpite na cor das paredes, das roupas, e dos carros dos moradores.  O dia chegou para o Batista e dessa vez o Raimundo se superou:

– Salve seu Batista! Que calorão!

– Pois é, estamos precisando de uma chuvinha.

– E então, feliz com o apartamento novo?

– Ainda estamos ajeitando as coisas, muitas caixas espalhadas…

– E a garagem? Gostou da vaga?

– Raimundo, eu não tenho carro.

– Com uma aposentadoria pequena assim não tem mesmo como manter um carro, né seu Batista?

– Como?

– Ah, eu vi na correspondência que o senhor é aposentado da prefeitura. Meu cunhado Ciço também é. Não tira nem mil por mês.

O Batista olha para a porta do elevador como se nela estivesse escrito em letras garrafais SAÍDA DE EMERGÊNCIA, chama o elevador e decide ficar calado. O Raimundo não:

– Seu Batista, já soube que eu e a minha companheira iremos nos casar no mês que vem?

– Muito bom, casamento é muito bom… – diz Batista já com as duas mãos no puxador da porta do elevador.

– A gente escolheu o senhor e o seu Amilcar do 301 para serem os padrinhos.

– Mas, rapaz, eu nem lhe conheço direito.

– Não tem problema, a geladeira fica com o seu Amilcar, o senhor dá o fogão.

– Eu? Não! Veja bem…

– A minha patroa quer todos os padrinhos de fraque rosa bebê e com uma cartola verde limão.

– Raimundo, eu –

– Eu sabia que o senhor iria topar seu Batista.

O elevador chega, o Batista entra desnorteado, a porta vai se fechando e ele ainda ouve o Raimundo dizendo do lado de fora:

– Seu Batista! A sua senhora tem Orkut?

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