25/09/1932

mom and dad

Quando eu tinha 10 anos de idade, vi meu pai chorar pela primeira vez. Ele acabara de saber, pelo telefone, da morte da minha avó. Minha mãe saiu da cozinha, o acolheu num abraço e ele chorou. Eu, sentado no sofá petrifiquei com a cena. “Meu pai não pode chorar. O que será de mim?”, pensei. Eu não tinha uma ligação próxima com a minha vó que morava tão distante, mas eu fiquei marcado para sempre com aquele choro. Eu não suportei o primeiro choro do meu homem forte.

Hoje [ontem], eu voltara da rua e colocava a chave do carro sobre a mesa quando ouvi minha mãe dizer a meu pai, que coincidentemente havia entrado em casa poucos segundos depois de mim:

– “Não tenho uma notícia feliz. Sua irmã Mariá faleceu.”

Meu pai, no mesmo instante se vira pra mim, que agora me encontro petrificado no caminho entre a sala e o meu quarto, e como quem busca forças em um desabafo, estremece os lábios de choro, encolhe os ombros, faz um sinal com as mãos e me diz: “O que podemos fazer? Ela não merecia mais tanto sofrimento. Que Deus a tenha…”  Eu franzi a testa, moldei os lábios com um ar de desmantelo, entrei no quarto e chorei só. Meu homem forte acha que o forte agora sou eu.

Hoje [hoje] ele faz aniversário.  Ainda bem cedo pela manhã foi precioso surpreendê-lo dentro do closet, ajeitando a gravata lilás alinhada com o risca de giz preto, que indicava talvez um luto e certamente muita elegância, para então abraçá-lo e beijá-lo por longos segundos e dizer que o amo e que Deus o abençoe.

33 comentários sobre “25/09/1932

    1. Obrigado minha querida! Mais tarde eu aviso a ele que o “pessoal do blog em que eu escrevo mandou parabéns”. Ele é interessado nessas coisas, sabia? Outro dia, no elevador, ele me perguntou assim, do nada: “Você precisa me ensinar a usar essas novidades da internet, me explicar para que serve. O que é esse “udubi” e o tal de “tuilti”?

      Cara, foi impossível segurar a gargalhada [da mesma forma que estou gargalhando ao me lembrar agora]! Fiquei tão sem graça por ter rido na cara dele.. hahahaha… enfim, depois que consegui me segurar eu falei um pouco sobre o YouTube e um outro pouco ainda menor sobre o Twitter.

      O velho é super interessado. Outro dia eu entrei no escritório dele e ele estava assistindo a um jogo de futebol que nao estava sendo televisionado. Eu parei ali extasiado e perguntei: “que site é esse que vc está vendo?” Ele rapidinho me respondeu lá o nome e eu saí impressionado com a sapiência do coroa… rsss É mole???

  1. é, não tem como não rir, não pq seja absurdo, mas pq é estranho ver alguém dessa idade falando sobre tecnologia e afins.

    ontem minha mãe me pediu um pen drive de presente, e eu perguntei pra que e ela com a cara mais limpa disse assim: ‘não sei, só sei que eu quero pq todo mundo tem…’

    agora eu se quiser q me vire pra dar um pen drive de presente e explicar o q ele faz… mas tudo bem, tudo pela felicidade dela.

    manda beijo pra ele sim, diz q foi uma q tem o mesmo nome da neta e que também gosta muito do filho dele.

    beijos

    [ah, meu pai tmb é de 32.]

    1. Tou ligado!

      Vá pela sombra e respeite o limite de velocidade. Não se esqueça de colocar a água na sala, e apagar a luz do cachorro!

      😉

  2. Puxa vida meu amigo… eu vim aqui pra falar do Claudinho e Buchecha e me deparo com esse texto tão emocionante… fiquei triste…
    Eu ainda não aprendi a lidar com a morte… e a dor de ver meus pais tristes tbm é quase insuportável.
    É tão difícil ter que parecer forte quando estamos chorando por dentro…
    Parabéns ao seu querido pai! Muita saúde, muitas felicidades e muuuuuuuuiiitos anos de vida!
    Grande abraço!

    1. Olá! Obrigado pelas palavras gentis. Aqui está tudo bem, os netos e filhos cuidaram de animar o velho Aurélio. A festa foi divertida e com muito amor. Estamos todos alegres, graças a Deus.

      Por hoje passa, mas outro dia você volta porque… saaaaabiiii… tchururuuuuuu… estou loko pra ti veeeeeee.. oi ièissssssss….

      😛

    1. Menina Ludmilla das palavras ácidas e tão inteligentes! Que surpresa vê-la por aqui!

      Não ligue para as minhas hipérboles. Os que ligaram, não me lêem mais.. rssss

      Espero revê-la tbm.

      Bjo.

      Ivan.

  3. Oi Ivan, tudo bem?
    É difícil isso, a dor da perda, infelizmente somos obrigados a passar por ela.
    As vezes a força que as pessoas demonstram ter são apenas uma fachada, no 1° momento desabam, isso é bom, pq demonstra o quanto são humanas. Isso pra mim é a verdadeira força, saber demonstrar seus sentimentos, saber demonstrar sua humanidade as pessoas ao nosso redor.
    Sinto muito.
    O texto ficou excelente, parabêns.
    Desejo a seu pai, muita sapude, paz, alegrias, muitas décadas de vida, que Deus o ilumine e abençõe sempre, mas não só a ele, mas a vc, sua família, amigos, pois a nossa felicidade ñ é completa se vemos as pessoas das quais gostamos infelizes.

    Se cuidem
    Abraços
    🙂

  4. Oi!!
    Vi seu endereço no blog da Fal, e estou aqui.
    Gostei do que vc escreveu.
    Esses momentos na vida são preciosos (dor/felicidade), é isso, se sinta abraçado.
    Um abraço
    Obs. Estou em Manaus, uma cidade quente, quando não é quente é muito quente.

    1. Querida Iolene,

      Muito obrigado por sua visita e suas palavras gentis.

      Um abraço amigo a você!

      Estive na sua cidade durante a troca de avião num vôo em plena madrugada. O que me impressionou foi realmente o calor naquele horário do dia. Aqui estamos sofrendo com um frio que não teima em passar… rssss

  5. Ivan,

    I wish I had better language skills and could enjoy your blog more fully. Perhaps I will see if I can take a Portuguese language class at the seniors centre.

    would ever consider posting in both Portuguese and English?

    Don

    1. Hey Don!

      I love when you come just to say hi and complain about the ‘Portuguese Only’ version of my blog. I wish you had the language skills cause I ain’t bold enough to try an English version of my crap! I consider indeed, buddy! But I’m kind of a perfection freak when it comes to writing. I know I can’t do it decently in any other language than my native one. Sorry for that!

      Ivan.

      1. I completely understand, Ivan, but it was worth a try!

        Maybe it isn’t too late for me to start my lessons. If I could ever learn to write half as well in Portuguese as you do in English I would consider myself a lucky man.

        All the best my foreign language friend!

        Don

        1. It will always be worth a try! You are damn right, my friend!

          I really like your visits and words, Don. You’re a hell of a blogger. I pay you my compliments!

          The best for you always!

          Ivan

          Tell York, once he asked, that it is indeed the admiral and mom on the picture. Unfortunately it can’t show the sword he received that day when he was comissioned a second lieutenant. BTW, he still keeps that sword at home, ready to be used!

  6. Meu pai me dizia que tinha uma Fada Madrinha, que morava na Groenlândia. A tal Fada sempre mandava presentes pra mim, e quando eu vi no Atlas, que o tal lugar existia, fiquei tão espantada…rs

    Pai tem um apelo diferente de mãe, acho que é uma relação mais subliminar.

    * Texto cheio de emoção.

    Beijos.

    ℓυηα

    1. Obrigado por contar sobre a fadinha da Groenlândia! Essas coisas contadas por um pai são especiais. Eu lembro que meu pai sempre me enlaçou com a palavra “breve”. Há uma cena da qual nunca me esqueço. Eu tinha uns 8 ou 9 anos e estávamos visitando a mãe dele na pequena cidade de Santaluz no interior da Bahia. Lá, na casa onde ele nasceu, feita de estuque, onde a água que bebíamos descansava numa moringa de barro, e, à noite, a luz que iluminava era a que vinha dos lampeões a querosene. Ali naquela casa, sentado nos degraus da porta da frente, eu estava deitado em seu colo olhando o céu verdadeiramente céu, negro, com as miríades de estrelas visíveis que hoje são ofuscadas pelas luzes das cidades, eu perguntava: pai, quando vamos voltar pra casa? E ele dizia: Breve. Eu perguntava: Quando é breve? E ele insistia: Breve é breve…

      Ivan.

  7. Nossa história, que nossa memória traz a tona vez por outra, fragmentos de instantes carregados de emoções, são momentos únicos que vivemos, e o sabor é indescritível. Às vezes, nem conseguimos traduzir em palavras, tudo o que elas nos representam…
    Mas nesse texto belíssimo, e muito bem escrito, conseguistes passar uma beleza ímpar de um homem que muita gente gostaria de ter como pai.
    Beijo!

    1. Grato pelas palavras tão sábias e polidas.

      A capacidade de escrever as emoções só se completa com a capacidade dos que são hábeis para ler emoções. Fico feliz pela cooperação.

      Meu pai teve cinco filhos, mas no fundo acho que ele é pai de muitos mais.

      Bjo.

      Ivan.

      1. É a sensibilidade que conseguimos aprimorar ao longo desta jornada, que capacita e nos difere dos animais irracionais. Todavia, nos surpreendemos com os bichos, e por vezes nos decepcionamos com os humanos… E a exemplo de muitos desses animais, que vivem em harmonia, até cuidando de outras espécies órfãs pela mão da natureza, muitos seres podem ser chamado de evoluídos. Por certo, seu pai deve ter zelado por outras almas, com seu coração generoso e seu amor.
        Beijo!

  8. Que texto mais lindo. A situação, os sentimentos, as racionalizações, tudo lindo, mas o texto… que texto.

    1. Salomão, o sábio, certa vez disse que o “homem é provado pelo louvor que recebe”. Ivan, o burro, acrescenta: principalmente se o louvor vier de uma escritora profissional e consagrada. Valha-me Deus, Fal!

      Bem, uh, ah, hmm, é, sei lá, entende?

      Valeu! 😉

      Ivan.

  9. Uau! Emocionante…
    Também tenho isso com meu pai e sinto que está sendo transferido pra mim, da forma como narrou.
    Mas, mesmo sabendo que hoje posso ser forte e ajudá-lo quando preciso, ainda me derruba vê-lo chateado ou chorando…
    O que vale mais é estar presente, é o abraço, o conforto e dizer que o ama, como fez!
    Lindo!!!!
    Tenha uma ótima semana!
    Beijos

    1. Olá, MM!

      É muito profundo essa coisa de laços da alma. Concordo com você. O que mais importa é estar ali pra que eles saibam que jamais serão deixados. Nossos pais são preciosos e não devem ser tratados de nenhuma outra maneira que não com o mais alto valor. Não é um dever, é uma honra.

      Otima semana pra vc tbm.

      Beijo.

      Ivan.

  10. O texto me fez voltar a quase 5 (cinco) anos atrás, dezembro de 2004, momento em que meu pai ainda em meus braços, se despedia dessa vida terrena.
    Ele por toda sua vida, mostrou seu lado tradicional nas opiniões diversas diante da vida, como sua cultura e educação assim o permitia, contudo em muitos momentos, esses agraciados por um amor verdadeiro de um pai sempre presente, mostrava seu lado amigo, seu lado mestre, companheiro, ouvinte, e sobretudo, seu lado humano e enraizado na Fé e crença Cristã, que fora sem dúvida alguma um grande alicerce para sua vida, bem como a qual mostrou às suas três filhas e duas netas.
    Eu ficaria horas aqui, escrevendo sobre a imagem paterna que tive, sairia um livro, rsrs… mas queria apenas dizer, que àqueles que tiveram seu pai ao lado, que sejam considerados abençoados, pois cada qual com sua história de vida, seja ela qual for, que levem como um aprendizado cada momento vivido ao lado de quem lhe ama e lhe amou nesta vida, afinal aqui, é apenas o começo de um caminho que está por vir.
    Obrigada meu pai, por tudo que me ensinou, meu mestre, meu amigo, minha continuidade na sabedoria e caráter.

    Obrigada Ivan, pela oportunidade desse momento. Bjs.

  11. Ah…que lindo….
    Pai deve ser tudibom né…
    O meu faleceu antes mesmo de eu nascer…
    O padrasto foi a pedra no meu sapato a vida inteira…Mas sabe, sofri quando ele morreu…bem ou mal era a unica figura paterna que eu tinha…
    Histórias de pais e filhos sempre me emocionam…é uma coisa que nunca sentirei…nunca terei essas histórias pra contar….e esse nunca…dói….
    Parabéns…pelo Pai e pelo lindo texto!
    Bjinhos

    1. Olá Barbarella!

      Acredite: seu depoimento também emociona e toca. Não sou um homem que você poderia classificar como religioso, mas acredito em Deus. E o Deus em que eu acredito se revela, para mim, na mais completa das formas, ou seja, de Pai. Feche seus olhos e creia, pois você nunca foi órfã. Seu verdadeiro e mais perfeito Pai sempre esteve e sempre estará presente em tua vida.

      Ok, ok.. vamos parar com isso, ou vai rolar o maior chororô…rsss

      Paz para você.

      Ivan.

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