Como se eu fosse flor…

florencio e otaviano

Florêncio está sentado à mesa no canto do bar, Otaviano chega reclamando do calor, o garçom coloca dois chopes, um claro e um escuro, como já era o costume dos velhos amigos. Eles brindam. Florêncio diz pra Otaviano que chope escuro é “coisa de viado”, o amigo ri deixando escapar um pouco de espuma que escorre pelo queixo e cai em seu colo. Ele já não ligava mais para essa implicância de Florêncio.

De repente Otaviano solta um latido de cachorro que chama atenção de várias mesas ao lado.

Florêncio: Otaviano… você acabou de latir?

Otaviano: Ahn? Lati sim.

Otaviano late novamente.

Florêncio: Ah tá… eu só estava checando…

Otaviano: Florêncio.

Florêncio: Sim?

Otaviano: Alguma vez eu me abaixei para cheirar seu rabo?

Florêncio: Coméquié?

Otaviano: Eu sei que pode parecer esquisito, mas quando eu estava vindo pra cá eu vi dois cachorros cheirando o rabo um do outro e aí pensei: isso é que é amizade de verdade… você não acha?

Florêncio: Otaviano, eles são cachorros…

Otaviano: Eu sei disso. Mas acontece que aqueles cachorros só se conheciam no máximo há dois minutos. Por outro lado, eu te conheço desde o jardim de infância e me ocorreu que nunca me abaixei para cheirar seu rabo. Isso me deprime de alguma forma. Passe o torresmo, por favor.

Florêncio: Você está bem, Otaviano?

Otaviano: Não sei. Estou confuso. Nós somos muito formais… não apenas eu e você, mas todo mundo. Eu não me lembro da última vez em que andei na rua, e vendo uma mulher em quem eu estivesse interessado, ter me aproximado e enfiado meu nariz entre as pernas dela. Os cachorros fazem isso Florêncio! Os cachorros sabem o que é certo, claro que sabem. Eles não se inibem, não se embaraçam, não se reprimem…

Florêncio: Presta atenção Otaviano… você está desprezando um argumento muito importante nessa situação: Eles são cachorros, seu idiota! A razão para eles agirem assim é porque não são inteligentes o suficiente para fazer de outra forma. Porra Otaviano, esses cachorros cagam na sua calçada!

Otaviano dá uma risadinha esquisita. Florêncio olha preocupado.

Florêncio: Otaviano não vai me dizer que você…

Otaviano: Ontem à noite… eu andei até a calçada do vizinho e dei uma cagada embaixo da goiabeira. E quer saber? A sensação foi ótima, me senti… natural.

Florêncio: Você está precisando de férias.

Otaviano: Eu preciso é de pulgas. Preciso correr atrás de gatos e de mijar nos postes.

Florêncio: Otaviano, todo mundo quer ser livre às vezes. Todos ser humano quer abrir mão de suas responsabilidades, mas nós já evoluímos e largamos esse tipo de comportamento. Passa o sal, por favor.

Otaviano: Você tem razão. Agora a gente diz para as pessoas a quem odiamos que nós gostamos delas. A gente mente. Rouba. Trai. Estamos tão aleijados emocionalmente que nem conseguimos manter um relacionamento e nem sequer uma conversa franca. Nós somos uma sociedade repressora, deprimente, neurótica e cheia de ódio que não tem tato para conectar com seus próprios instintos. Me deixa cheirar seu rabo! E me deixa agora!!!

Florêncio bate em Otaviano com o porta-guardanapo.

Florêncio: Fica! Senta! Finge de morto!

Otaviano resmunga baixinho e dá um gole em seu chope escuro.

______

outdoor (1)

30 comentários sobre “Como se eu fosse flor…

    1. Sentimental,

      Acredita que eu também curti um monte fazê-lo? rssss

      Confesso que trabalhar com imagens divide meu prazer quase que em igualdade com a escrita… rs

      Que bom que você amou!

      Beijo.

      Ivan.

  1. Me diverti com esse seu post…rsss
    Coitado do Otaviano,mas se bem que tem hora que vejo a vida do meu cachorro de estimação, Frederico,e fico pensando,que sorte ele tem de poder dormir o dia todo, de não ter que pagar contas e nem ter as preocupações que nós temos…
    Mas prefiro continuar sendo eu mesma…
    Muito legal tb esse outdoor!

    1. Oi Ana Carolina!

      Sempre bom tê-la por aqui, meu bem!

      Eu curti muito escrever essa historinha. Ela tem um humor óbvio, com o qual também ri em imaginar e escrever. Mas há uma implicação social nessa historinha e acho que vale uma reflexão. A que você fez em relação ao Frederico é válida também. 🙂

      Curti demais também o outdoor!

      Bjo.

      Ivan.

      1. Entendi a implicação social,e vale mesmo uma reflexão…parece q vc é mesmo bom com as mãos e a cabeça ne?! rsss…
        Ahh e estou por aqui sempre com certeza!!!
        Bjos!

  2. Sem duvida, Otaviano Catarse, não estava num bom dia. .

    Seguindo o meu ritual da ajuda ao próximo (estou tentando uma vaga de assessora financeira com a Bispa, rs) enviarei posteriormente endereços de locais que para Adestramentos.

    Beijos.

    1. Juju, Juju, Juju…

      Se eu fosse cachorro eu cheirava teu rabo agora mesmo! rssss Nada como uma boa demonstração de amor animal entre amigos que se querem bem. ha!

      Quanto ao teu ritual, será que você consegue um canil 5 estrelas? Fale com a bispa. Ela certamente sabe de um.

      Beijocas!

      Ivan.

    1. Querida Luna,

      Fico feliz por você ter pego o “espírito da coisa”! Certamente você pode ser uma cadelinha perua como essa, mesmo eu tendo lido, se é que não estou enganado, que você curte felinos e não cachorros. Animais têm muito a nos ensinar.

      Eu amo cachorros e tenho saudades das três cadelas que passaram em minha vida: Maggy, Lola e Texas. Acho que vou chorar… sniff.. .:P

      Quanto a te ensinar a fazer o outdoor, seria um privilégio, mas acho que a logística nos atrapalha. Se quiser encomendar um, dando as direções do que pretende, eu farei com prazer. Trabalhar com imagens é uma terapia pra mim!

      Beijo.

      Ivan.

  3. Um viva aos sábios cachorros, né? 😉

    Ah, e adorei o outdoor… juntando as duas informações, lembrei de uma frase que ouvi ou li (não lembro), um dia desses: “Quanto mais conheço os homens, mais admiro meu cachorro.”

    Pelo menos, os que conheci até agora, eu troco por um de quatro patas numa boa! ;P

    Beijos, amore!

    1. É sempre bom ter um 4 patas por perto, mas te desejo um bom homo sapiens de 2 pernas que te faça bem. Enquanto esse sujeito não aparece, faça de tudo para cuidar bem de si. Ninguém pode te amar mais do que você mesma. Absolutamente ninguém, mesmo que esse alguém diga que o faça.

      Beijos, querida.

      Ivan.

  4. cara…me identifiquei com o Otaviano…

    tenho pensado muito nisso que ele diz…

    (ps : o outdoor me deu uma luz…parece que as coisas acontecem pra gente se ligar…)

    1. Claudio,

      Otaviano tá com a tocha e nem todos percebem. A cagada que ele deu na calçada foi o ó do borogodó! Tou nessa!

      Bendito seja esse outdoor…

      Tudo de bom pra você!

      Ivan.

  5. Sério?

    Obaaaaaaaaaa!!!

    Obrigada, tá, pela delicadeza. 😉

    Quando tiver um tempo, faz um para o meu Palavras, então? Sei que tu sabe qual a onda de lá, confio na tua criatividade e bom gosto.

    Beijos de quem diz “Obrigadaaaaaaa”, dando pulinhos.

    ℓυηα

    1. Oi Luna.

      Será uma honra! Seu blog é excelente. Um dos melhores que leio! Mas, em relação ao outdoor, por favor, me dê mais “food for my brain”… rs

      Beijos, sem pulinhos, mas com um sorriso no rosto!

      🙂

      Ivan.

  6. risos… a forma como você mesclou a conversa principal com os detalhes do bar ficou perfeita!
    O questionamento do Otaviano de que estamos muito moldados, pouco espontâneos e várias vezes fazemos o que não queremos até que é válido… mas podemos buscar a liberdade de outra forma, né? Sugestões? risos…
    Beijos, meu amigo!
    (p.s.: oh, pra você eu conto, tá? mas só pra você… hehehe)

    1. Oi MM!

      O questionamento é totalmente válido! As hipérboles, a gente deixa de lado, mas as metáforas não as desprezamos. Liberdade a qualquer custo, eu digo.

      Oba.. conta conta conta.. rsss

      Beijocas.

      Ivan.

  7. Ah, esqueci: realmente, o outdoor é sensacional. Ufa, ainda bem que ainda temos chances, né?! 😉

  8. Oi Ivan, tudobem?
    menino adorei, dei umas risadinhas boas, rsrs.
    E o outdoor ficou massa, rs.
    Estou no caminho certo, assim posso ajudar mais.

    Abraços
    🙂

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