Na Ilha das Cobras

Era lá na Ilha das Cobras, em um ano em que se disputavam as Malvinas e os caças Vulcan invadiam nosso espaço aéreo. O nome dele era Duarte e na falta de um outro professor, ele ensinava matemática. E eu não aprendia. Em plena aula eu lia distraído um folheto que um crente me dera quando eu seguia a caminho da escola. Estava na parte em que o apóstolo Paulo falava do dom da graça quando o Duarte puxou o folheto da minha mão, leu o título “O Caminho da Salvação” em voz alta e depois me fez ler o restante diante de todos os meus amigos na intenção de me humilhar.

Eu não tinha a fé do folhetinho. Eu não tinha pretensão de ter. Eu só não suportava a aula do professor Duarte após o rancho no calor de novembro. Eu só queria uma distração, uma leitura, que poderia ser uma bula, a embalagem velha de qualquer produto encontrado no chão. Eu só não entendia logaritmo.

Duarte aproveitou a situação para interromper a aula, talvez porque ele também não entendesse de logaritmos. Eu li tudo em voz alta, em pé, na frente de todos. Ele ria de mim. Meus amigos não riam. Eles sabiam que Duarte mexera com o cara errado. “O Zinha não vai deixar isso assim.”

O cara rompeu minha leitura e começou a falar em tom de confissão e jactância que “não abria mão de seu cigarro, de sua bebida, e de ir à zona toda sexta”. O “caminho da salvação” mexeu com ele. Aquilo produziu nele atos falhos e nos fez rir a todos [os alunos]. Ele, aquele viadão enrustido, queria que nós, os meninos do terceiro ano da turma de Estrutura Naval da Escola Técnica do Arsenal de Marinha, acreditássemos que ele comia mulher, da mesma forma que um dia, ainda no primeiro ano, acreditamos que a porta do dique seco tinha uma chave — como diziam os veteranos ao nos mandarem buscá-la como forma de trote.

Mas, Duarte, com aquela sua boca preta de chupador de rola que sempre babava enquanto falava, queria mesmo era humilhar um garoto que não entendia sua matemática. O menino só queria alguém que o ajudasse, ou mesmo algo que o distraísse como fazia o panfletinho proselitista. O menino ouviu a tentativa da humilhação. O menino esperou até o fim. E quando aquele pernóstico deu uma pausa pra respirar, o menino o surpreendeu dizendo: “Duarte, você é um viado que dá o cu na Lapa e não sabe porra nenhuma de matemática.”

Quando terminei de dizer isso, imediatamente após ouviu-se em sequência o som das gargalhadas do meu pessoal, o som do alarme avisando o término da aula, o som das cadeiras arrastando, o som dos passos na escada rumo à aula de carpintaria naval, e, por fim, o silêncio. Nunca mais se falou desse assunto na aula de matemática.

nós dois

amo mais voce

admitir

25 comentários sobre “Na Ilha das Cobras

  1. Ivan que texto adoravel…..rs
    fala sério, como é bom olhar na cara de um fdp e dizer tudo o que você acha dele…!
    Agora, vem cá…que listinha mais gostosa…
    achei ali muitas coisas que amo d+… ( U2, raspa de leite moça hummmmm, etc…)
    Teu blog é uma delícia : )
    Barbarella

    1. Oi linda Brbrll,

      É muito bom ser autêntico. A coisa funciona assim: a gente nasce autêntico, entende? Com 4 aninhos, dentro de um elevador cheio, a gente diz sem problema algum: “mãêêêê! essi moçu tá muitu fedolentoooo!!!” E à medida que vamos crescendo a gente começa a ficar mais politicamente correto [my ass]. Que bom que naquela época meu veneno ainda ficava mais perto da boca. Ele mereceu, aquele lazarento.. rss

      Obrigado pelo carinho ao Blog, querida.

      Beijos.

      Ivan.

  2. O que mais me encanta são esses recadinhos……….as entrelinhas e o explicito sem o ser…………tão afetuoso e tão sensivel.

    feliz da moça que é foco disso tudo.

    carinho

    1. Denise,

      A maravilhosa Clarice Lispector dizia que “já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.” Entrelinha é tão importante que eu a promoveria a figura de linguagem. Com certeza!

      Beijocas.

      IvanEntrelinhaSantos.

  3. Teu texto me fez lembrar dos sapos que engoli, e foram muitos não vou negar, mas o pior foi uma palestra que fui obrigada assistir dada pro Eduardo Suplicy falando sobre distribuição de renda. Foram às duas horas mais longas da minha vida, e para não morrer sufocada eu cantarolava baixinho Atirei o Pau no Gato (rs).

    Tua lista me levou a rever um filme que adoro o Fabuloso Destino de Amélie Poulain (e viva as entrelinhas).

    Beijos meu querido amigo.

    Ps: to me vendo fazendo confissões intimas isso é terapia virtual (socorro)… rssss

    1. Minha querida cliente Juju,

      Hoje a sessão foi bem proveitosa. Não esqueça de deixar seu cheque.

      Pensei que o maior sapo tinha vindo do Rabino Sobel… Sarra… Sarra…. rssss

      Beijocas, meu bem.

      Ivan.

  4. Oii Ivan!!!

    Nossaa, me identifiquei mto com esse post,em varios aspectos:hoje tive uma atitude parecida com um Duarte da minha vida , e na listinha de coisas,mtas dlas tbem gosto,fotografia,u2 pipoca,musica,batata cozida frita assada,cheiro de chuva e de livro novo….
    Lindo o post!!!
    Bjoo!

    1. Obrigado pela visita e comentário, Ana!

      Morte aos Duartes, eu digo! Foi bom eu ter me lembrado dessa cena. O “Zinha” continua vivo aqui dentro de mim. Eu faço de tudo pra nao deixá-lo morrer!

      Beijocas!

      Ivan.

  5. Adorei a lista de coisas que amo. Vou fazer uma dessas pra mim, de papelão e caneta preta, e colar no parede. Vai ficar ótimo. 🙂
    Achei uma delicadeza linda colocar o drops ali no cantinho, como se tivesse lembrado depois de escrever… Amei!
    Também gostei de saber que o sr é Vascaíno. Rsrs…
    Estou começando a me apaixonar por papelão… Ele tem trazido coisas tão lindas…

    Beijo Grande

    1. Oi Maíra!

      Ótima a idéia do papelão na parede! Quanto ao drops, você tem razão, eu coloquei após ter concluído a lista. Acho que valeu a homenagem à Fal… rss Além do drops eu coloquei um ‘u’ em touca… rsss

      … quero ver o Vasco ser campeão… São Januááário, meu caldeirããoo… la la la la lala la la la laaaa….

      Beijinhos, meu bem.

      Ivan.

  6. KKKKKKKKKKKKKKK..Rilitros!!!

    É bem verdade,que eu queria dizer para algumas pessoas que convivem comigo algumas coisitas….nos meus melhores sonhos, eu subo em cima da mesa, e digo com todas as letras o que penso de verdade…mas só nos sonhos, pq se assim o fizesse, teria que imprimir muitos curriculos…kkkkkk
    Adoro as imagens, adorei a lista, muito sincera e eloquente…
    Ps: a gente sempre gosta de um apelido ridiculo, desde que seja dito pela pessoa certa…

    beijos mil!

    1. Querida Amanda,

      Por isso, e outras coisas, é que eu adoro pesadelos, e detesto sonhos! Eu ainda guardo muito da ousadia e honestidade dos meus 17 anos. Odeio quando tenho que temperá-la em prol do politicamente correto. rss

      Espero que a pessoa certa apareça e lhe chame de Petelequinha… 😛

      Obrigado pelas palavras!

      Beijocas!

      Ivan.

  7. Hahaha Adorei a tranquilidade do Zinha e a paciência pra esperar até o final e soltar o verbo pra o professor.

    😉

    Beijos queridão, obrigada pelas visitas!

    1. Oi Miss,

      O Zinha alude, remete-se, reporta-se a um dos meus melhores anos. A minha experiência na Escola Técnica foi uma das mais belas oportunidades de vivenciar relações de forte amizade. Eu era o “King of the Hills”! Bons tempos!

      Beijinho.

      Ivan.

  8. OiÊ Ivan,

    Já vi q aqui a imaginação corre solta!

    Então tá… voltarei.. adorei tudo.. tb amo td isso tanto qnt vc.. at seu blog

    A cobra foi-s embora

    bjinhus, cobras e gargalhadas

    Lelli

    1. Lelli Ramz,

      Lelli Ramz, Lelli Ramz… não se preocupe, não sou gago, e não dei Ctrl C/ Ctrl V. É que eu gosto de sonoridades… e esse Lelli Ramz é bom demais de falar… Lelli Ramz… humm..

      Bem.. aqui é pra correr solto e sem rédeas. Se um dia deixar de ser, simplesmente não mais será.

      Volte sim, Lelli Ramz, vou espiar com mais calma teu ninho, quer dizer, teu blog.

      Beijos.

      Ivan.

  9. Ui, senti uma leveza na alma! Coisa boa ver chegar o dia de dizer umas verdades bem merecidas para algum idiota. Isso é libertador! \o/

    As imagens são lindas, nem tenho o que dizer. Também gosto de muitas coisas que estão na tua lista, e concordo plenamente que batata é uma das comidas mais gostosas do mundo…só não como crua, mesmo. De resto, vai.

    Beijos, querido.

    ℓυηα

    Hoje estou tão sensível, estou à flor da pele, estou por um suspiro. Daí, olhei para a lista e pensei que, um dia, o teu estoque de papelão pode acabar, e eu chorei, porque não quero que tu deixe de escrever em papelão.

    1. Oi Luna!

      Leveza total. Esse texto estava guardado na área de rascunho do blog há umas 5 semanas… foi a hora certa de soltá-lo. Ele é praticamente a reprodução de um comentário que fiz no blog da minha amiga [tipo Luciano Hulk] Cecília. Ela falava de um professor fdp dela.. .e eu me lembrei do Duarte babão e sua tentativa de transformar sua pobre aula em um coliseu, onde eu era o cristão, e ele era o leão… tolinho. Foi bom lembrar. Cheguei a ouvir a gargalhada da minha turma. Nós éramos terríveis, we were ruling the entire fucking world!

      Sensibilidade é tão ambíguo. Nos falta às vezes e em outras vêm excessivamente. Fico feliz que o amor do papelão te toque, te faça bem. Prometo que enquanto tiver papelão no mundo, eu vou escrevendo, quando acabar eu parto para outra matéria prima, e, quando eu não tiver mais nada a dizer, eu não direi mais nada.

      Obrigado pelo carinho.

      Ivan.

      1. Não imaginei, até então, que se tratasse de uma experiência pessoal…fica infinitamente mais denso, agora.

        * Obrigada por prometer escrever enquanto houver papelão no mundo. Obrigada por prometer encontrar outra coisa no que escrever, quando (e se) o papelão acabar. E obrigada por me alertar de que, um dia, tu poderá não ter mais nada a dizer.

        Eu não acredito nessa última parte, porque tu sempre terá o que dizer. Acho que tu também não acredita…que bom. De todo jeito, obrigada pela sensibilidade, que, pra ti, parece vir sempre na medida certa.

        Chorei de novo. Não sei o que teu blog tá fazendo comigo.

        Beijo, querido (de querido, mesmo, pessoa a quem se quer, a quem se quer bem).

        ℓυηα

        1. Oi Luna!

          Ah, de certa forma gostei que você não tenha percebido que se tratava de uma crônica épica [isso foi por volta de 1982, então acho que pode ser considerado um épico.. rs]. A sensação da história ser lida como um conto fictício dá um certo ar literário aos fatos. Isso é legal. Aliás, percebo que algumas pessoas têm dificuldade em discernir quando eu estou falando de mim, de mim e de mais alguma coisa, ou de alguma coisa que não eu. Isso me diverte [na maioria das vezes.. rs]

          Olha, por mais que possa parecer comedimento, o fato é: nem sempre eu tenho algo a dizer. E, tenho um compromisso com o fato de ter algo a dizer, seja uma boa coisa, ou uma bosta. Considere sempre essa possibilidade.

          Agora pare com essa choradeira! Só pode ser a danada da TPM! Vá distrair essa sua cabecinha tão fértil e desopilar de tudo. Ache um lugar deserto e berre a plenos pulmões. Funciona comigo. Ah, tem que ser deserto, ou pode acabar dando internação! 😉

          Obrigado pelo bem querer. É recíproco!

          Ivan.

          1. Desde que comecei a te ler, acho (acho, tá?) que essa foi a primeira vez que não consegui identificar.

            Bom, meu bem…o único lugar deserto ao qual poderei ir, nos próximos 30 dias é o banheiro, e mesmo assim, aos pulos, porque estou com a perna imobilizada. Será que serve?

            Beijinho.

            ℓυηα

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