Exposição Esculturas – Ivan Santos

Eu me rendo às forças exóticas da natureza utilizando materiais  feitos pelo homem, buscando embaçar as linhas entre a realidade e a não realidade. Minhas esculturas refletem o equilíbrio refinado entre o espaço positivo e negativo, materializando  a tensão entre aquilo que é verbal e as entrelinhas

-Ivan Santos , Escultor Profissional

Esse trabalho me emociona muito. Primeira Uva Thompson  Almoçada [PUTA] foi o meu primeiro parto como escultor. Eu havia deixado a casa de meu pai para estudar escultura em argila numa olaria lá em Olaria, subúrbio do Rio. No dia da minha partida meu pai me surpreendeu ao me dar um cheque no valor de R$200,00, que somado ao que eu tinha investido na caderneta de poupança ao longo de 7 anos, me deixou com uma quantia expressiva de R$207,00.

Por sorte eu consegui encontrar um quartinho perto da olaria lá em Olaria no valor de R$200,00/mês. Com os sete reais que me sobraram eu fui ao supermercado fazer umas comprinhas que na verdade se resumiram a 1 kg de uva Thompson. Foi ali, durante a minha primeira refeição a sós em meu quartinho, que a inspiração da PUTA frutificou. Infelizmente, como eu estava financeiramente impedido eu não pude adicionar um pedaço de romã imperial [RI] para transformar PUTA em RIPUTA. Por outro lado a minha privação me introduziu ao mundo da arte minimalista e eu pude negar a arte cartesiana européia, para ingressar nesse viés fenomenólogo que quebra as barreiras entre pintura e escultura.

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Essa peça foi encomendada pelo grupo MGM [Movimento Gay de Minas] em homenagem a Santos Dumont –  o gay que realizou a mais significante das invenções na história da humanidade [e irmandade]. 14 Bis foi copiada recentemente [com minha permissão] pelo escultor Daniel Edwards na sua escultura Brangelina que retrata o casal Brad e Angelina. Ele comentou ao New York Times que “da mesma forma que 14 Bis é uma peça eterna, a relação de Brad e Angie vai perdurar na memória das pessoas”. Eu, pessoalmente, não acredito que dure tanto assim.

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A inspiração para essa peça me veio durante um vôo para São Paulo. Foi uma viagem de negócios de apenas três dias, mas na ocasião eu senti como se eu estivesse indo embora pra sempre.

Depois que todos os meus amigos vieram me ver partir no aeroporto [eu implorei a eles que viessem], eu entrei no avião, apertei o cinto, e peguei o folheto explicativo no bolso da poltrona da frente para que pudesse acompanhar as instruções de segurança da aeromoça.

Depois disso eu chorei silenciosamente enquanto minhas mãos ganharam vida própria, rasgaram um pedaço de papel do meu diário e operaram mágica por meio de um Cubismo Analítico que se caracteriza pela desestruturação da obra em todos os seus elementos.

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Essa é uma das minhas peças favoritas. Eu a criei numa sexta-feira às vésperas das minhas férias em 2008. Apesar de inúmeras propostas de compra e de um comovente apelo dos curadores do Louvre para que eu cedesse a peça para exposição, eu fiz de Crânio Happy uma espécie de companhia sempre presente e não a libero por nada. Eu a compararia a Wilson, o companheiro de Tom Hanks que foi náufrago no Pacífico. Crânio Happy é a minha “pièce de résistance” e a guardo a 7 chaves num banco. Toda vez que me sinto estressado ou apático em relação a meu trabalho, eu vou até o banco dou uma olhadela em Crânio Happy e sorrio, lembrando-me rapidamente que numa questão de meses as minhas férias anuais estarão chegando.

É desnecessário dizer que eu vou ao banco praticamente todos os dias de hora em hora para olhar o Crânio Happy.

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Essa peça conta a história de um jovem de 23 anos que comprou seu primeiro carro. O jovem estava feliz com seu Gol 1.6 motor aspirado gelo ano 80. O motor de arranque do golzinho deu pau. O jovem sempre adiando o reparo empurrava sozinho o carro rampa abaixo na garagem do seu edifício e depois pulava no banco com o carro em movimento para dar um tranco e fazê-lo pegar. Isso se repetiu várias vezes até o jovem sofrer uma torção de testículo e ver uma de suas bolas desaparecer no limbo. Apesar do jovem manter a sua virilidade e fertilidade, o pobrezinho acabava tendo que sempre contar a mesma história do golzinho para as suas parceiras. Em homenagem à sua dor eu desenvolvi essa obra buscando referências no impressionismo de Van Gogh e também no surrealismo de Salvador Dali.

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Nota: você não conseguiu ler a sinopse dessa obra porque eu utilizei tinta invisível. Também por limitações visuais não é possível perceber que Homem Invisível estava usando seu Bulova ao deitar-se sobre a colcha que um rapazinho chamado Romero Brito me mandou de presente. Eu lamentei utilizar a minha cama para expor a escultura porque desde então eu preciso me certificar de que não me deitarei sobre ele. Ossos do ofício.

“As qualidades expressivas, os gestos agonizantes, e as poses dramáticas da arte de Ivan Santos colocam esse artista em destaque junto a seus pares. Ele é um artista com talento e  potencial consideráveis.”

-Mãe de Ivan Santos

28 comentários sobre “Exposição Esculturas – Ivan Santos

  1. Grande cozinheiro (a sua receita de ovo frito é inspiradora), fantástico fotógrafo (foi sua fotografia que me fez começar a falar por aqui) e agora, artista plástico primoroso.
    Quantos talentos tão desenvolvidos pode ter um único ser humano???
    Ivan, cada dia que passa fico mais impressionada com as suas capacidades artísticas. Ah, você também escreve direitinho, já ia me esquecendo.
    Quando será a sua próxima exposição? Não posso perder isso por nada! Me despenco pra CUritiba, se for caso, sem problemas.

    Beijo Grande.

    P.S.: hauhauhauhauhauhauhauhauhauhauhauhauahuahuahuahauhauhauahuahau

    1. Querida Maíra,

      Atualmente estou decidindo entre um convite do Metropolitan de Nova Iorque e o Tate Modern de Londres. Mas, se por acaso você estiver interessada em comprar alguma das minhas peças, elas estarão disponíveis na feira dos paraíbas lá em São Cristóvão por R$ 1,99. Aceito ticket refeição como forma de pagamento. Se comprar acima de R$5,00 leva um puff de cortesia!

      Agradeço o seu interesse por minha arte.

      Beijos.

      Ivan.

  2. Sensacional, genial.

    P.U.T.A. em particular traz uma aura da relevância aristocrática da simplicidade de estilo posta sob os holofotes do que Derrida chamaria de “muito foda” e o contato nostálgico com a natureza perdida de seu eu mais íntimo interior mesmo tentando alcançar o infinito, o ente secreto heideggeriano.
    Puta que o pariu!!

    Uma análise do “númeno” sob o sentido imanente de alteridade encontrada em “Monobola” só é possível após três conhaques, que evidenciam uma postura categórica de alheamento de si transformado em sublimação do Outro, e do caralho a quatro, só que resumido em um, que foi o que sobrou.

    Pô, mas essa história do Gol eu não engoli não, aí…

    beijos da sua crítica de arte favorita. 😛

    1. Querida Cecilia,

      Muito obrigado por suas palavras de apreço e elogio. É sempre muito bom ter como crítica de arte uma pessoa tão erudita e conhecedora do ramo. Você pecou apenas em uma coisa: Jacques Derrida não chamaria, ele chamou. Em 2004, o velho Derrida me disse que quando imaginou a teoria da desconstrução e a revelação dos significados ocultos do texto ele a pensou numa forma escultural como a que eu utilizo. Ele foi o primeiro a me dizer: “Tu é foda.” Eu disse que ele também era, e depois, ele faleceu.
      Excelente avaliação de Monobola, usarei semana que vem na minha entrevista às páginas amarelas de Veja.
      O Gol é de placa!

      Beijinhos.

      Ivan.

  3. rs…

    Só vc mesmo viu!!
    rs…

    Ah.. sobre seu coments no meu blog.. eu concordo que aquela não é a única solução.. mas acho que é uma delas…

    😉

    Um beijo e ótima semana!!

    1. Oi Sil!

      Só eu mesmo. A arte é única e não permite cópias. Os que insistem são chamados de plagiadores! Ha!

      É a única solução que a sociedade discute. Espero que a gente melhore o mundo de um jeito ou de outro. Vamos torcer e fazer nossa parte, não é, meu bem?

      Obrigado por suas palavras.

      Beijoquinha e ótima semana pra ti também.

      Ivan.

  4. Em pé, aplaudindo, me rendendo (de novo e sempre) ao teu talento, criatividade, presença de espírito e generosidade. Sim, só pessoas generosas compartilham coisas assim, tão bem sacadas, e com tanta doçura.

    Que orgulho eu sinto de ti, moço querido! 😀

    Beijos, todos.

    ℓυηα

    1. Bela Luna,

      Ivan, o blogueiro, fica com as pernas tremendo quando elogiado. Isso parece não me pertencer.

      Ivan, o escultor, vai até o seu ateliê e procura o seu trabalho intitulado “Eu Já Sabia” que consiste de uma cartolina cortada em forma retangular presa a uma vareta de 40 cm – na cartolina está escrito “Eu Já Sabia” – e mostra para Luna.

      Ha!

      Beijos e obrigado!!

      Ivan.

    1. Querida Amanda,

      Monobola já causou frisson numa exposição que fiz no MASP. Duas senhoras [uma de 16 e outra de 17] saíram no braço, saíram rolando pelas escadas e quase destruíram uma tela de Portinari. Eu nunca entendi o que realmente motivou o imbróglio. Corre um boato que as duas disseram ao mesmo tempo, “estou comendo”, ao olhar para O Monobola. Depois disso foram gritos de vaca, vadia, unhadas na cara, puxão de cabelo e a topada no Portinari.
      A propósito, Monobola está a venda. Se tiver interesse, procure o meu agente, que a propósito, sou eu mesmo.

      Ha!

      Beijinhos!

      Ivan.

  5. Os não reacionários vão perceber a magnitude dessas obras que os anos se encarregarão de consagrar. Enxergo no INVISIVEL um certo martírio e a demonização e do artista: São evidentes as idiossincrasias da personalidade .Que os sacerdotes da arte percebam a perplexidade do mundo apesar de tudo ser Happy
    Tua obra e sem duvida ee sem exagero pode ser vista como a Obra de Arte que Atormenta .

    Beijos …

    ( a d o r e i )

    1. Querida Juju,

      Sinto que a nossa conexão fez um upgrade em cerca de 5 pontos. Seu conhecimento e perspicácia arrancaram lágrimas de mim [obviamente que as recolhi em um receptáculo para aproveitá-las num projeto que denominei de “Lágrimas de Crocodilo”] enquanto escultor.
      Não se preocupe, contudo, com os não reacionários porque eles já se curvaram ao meu talento no dia em que a Rainha mãe me beijou as mãos quando lhe presenteei com uma réplica de P.U.T.A.. Ela não percebeu que era sobra de um cacho de uva itália enquanto corria feito criança pelos corredores de Buckingham segurando seu regalo e gritando: “I AM PUTA, I AM PUTA…”

      Ivan, o que atormenta.

      Beijocas.

    1. Oi Mar!

      Mamãe não erra em nada. Ela disse que sou o homem mais lindo, mais inteligente, o melhor filho, o mais gostoso, o mais cheiroso, o mais tudo. A única coisa é que ela diz o mesmo para meus irmãos! Ha!

      Beijo.

      Ivan.

  6. hum
    interessante
    deveras
    essas obras expressam o que ha de mais avantajado (principlamente o monobola) no cenario artistisco-escultural..
    salvador dali remexe-se no tumulo de inveja e indignação.

    (também faço algumas instalações dessas…mas como sou egocentrico, um puta escultor, um cara de grande visão artistica e mercadolõgica, recuso-me a mostrar.)

    1. Prezado Claudio,

      Não mate a arte, ponha pra fora! Se quiser eu te consigo uma vaguinha pra expor no M.O.M. Ali eu consigo facinho facinho.. ha!

      Um abração!

      Ivan.

      1. se eu por pra fora, vou deixar essa monobola no chinelo….

        kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

        não…ainda estou amadurecendo (!) a idéia…

        um dia terei uma exposição, só minha, ao ar livre, pra minhas peças respirarem melhor, no parque barigui…

        estarão, todas, convidadas…

        (vc também, vai, como digno representante do clube do bolinha…)

        abçs

  7. Ivan,
    Vim conhecer sua outra faceta (tem recadinho para vc lá na janela) e, devo confessar, que me diverti muito. Como gosto de arte orgânica a minha preferida foi a P.U.T.A.
    Posso levar esse link tb?
    beijos da janela

    1. Oi Clarice!

      Obrigado pela visita por aqui também. Fico contente que tenha se divertido.
      Clarice, eu acabei de vender a P.U.T.A., mas se você tiver interesse eu faço uma outra pra você.
      Ha!
      Leve o link sim. Eu nao me responsabilizo por efeitos colaterais…

      Beijos.

      Ivan.

      1. Ivan,

        Uma pena que vc vendeu a P.U.T.A, até poderia aceitar sua oferta, mas jamais seria “A” P.U.T.A (risos!)
        Bom, levei o link e por enquanto nada de efeitos colaterais, sigo com ele.
        beijos da janela

  8. Menino, eu não conhecia vc nem o Xoogle. Vi na Fal o link e cá estou. Adorei o 14 Bis. Uma escultura naive com a marca do gênio. 🙂 Virarei freguesa. Posso?
    abração

    1. Querida Maira,

      Quem vem pelos caminhos da Fal não é lançado fora! Ha!
      Fico contente que tenha se encantado com a 14 BIS. Preciso admitir que é uma das minhas favoritas. Já precisei reeditá-la umas dezenas de vezes porque a paixão pela obra é tão grande que eu a devoro antes de entregar ao cliente. Se você quiser adquirir seu exemplar, estou lançando o 14BIS avelã versão natalina. Ha!

      Beijos, meu bem.

      Seja sempre bem vinda!

      Ivan.

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