Sim, amor… anjos existem.

Eu estava em pé no ônibus com meu radar ligado. Um lugar atrás de mim vagou e eu o ofereci para um senhorzinho idoso que estava à minha frente. Ele era mulato, tinha a boca murcha provavelmente pela ausência de dentes, um bigodinho fininho e ralo, era magrinho e isso podia ser notado no excesso de pano que sobrava na sua calça jeans. Estava frio e, portanto vestia uma camiseta branca, uma camisa de microfibra terracota, um colete cinza de lã e uma jaqueta verde musgo. Ele não parecia muito preocupado em combinar cores. Seu cuidado era em se manter aquecido. Sobre a cabeça um boné de lã estilo Chaves.  Notei que se encolheu naquele assento, pôs as mãos cruzadas uma sobre a outra e de igual modo cruzou os pés calçados com sapatos pretos estilo militar. Senti ternura e compaixão por aquele velhinho.

Logo depois chegaram três Emos [vou chamá-los de Emo 1, Emo 2 e Emo 3]. Duas meninas, um menino. Não me peça para definir um Emo, mas se quiser eu lhe aponto um. A sacada é o cabelo. Se tiver um cabelo daquele tipo que eu chamava de caminho de rato quando eu era adolescente, então é Emo. Nada contra, nada a favor.

Continuei minha observação.

O assento ao lado do velhinho vagou e o menino Emo 3 sentou-se. Comecei a analisar os três. A menina Emo 1 que ficou mais próxima de mim usava tênis All Star branco com teclas de piano desenhadas com caneta preta no bico, calça jeans com a barra arrastando no chão e toda rasgada, uma camiseta branca com frases que não consegui entender. Num instante ela pegou seu celular, que me parecia bem estiloso [não entendo muito essas tribos, então não sei se Emos são desapegados do material como supostamente os punks são] e ligou para um amigo convidando-o a jogar algum jogo com ela e os outros dois. O amigo disse que não podia. Ela logo informou a Emo 2 e a Emo 3 que Emo 4 não poderia ir porque a mãe dele não deixou, sem deixar de emendar que ela era “um saco”. Emo 3 foi mais lacônico e disse: “é .. a mãe dele é muito filha da puta!” Na mesma hora notei que os olhos do velhinho pipocaram pra fora. Acho que ele não ouvia aquele palavrão tão de pertinho desde 1950 quando o Barbosa levou o gol do Uruguai na final da copa do mundo no Maracanã. A franja do cabelo de Emo 3 parecia ter sido feita por um cabeleireiro cego destro usando a mão esquerda. Ele também usava um All Star preto de couro e um jeans preto daqueles apertadinhos que deixam as pernas parecidas com duas bracatingas. A camiseta também preta tinha umas pinturas em branco feitas à mão. Provavelmente ele quem fez. Seus óculos eram Ray-Ban num estilo vintage o mesmo que a Emo 2 usava. Tinham cores e tamanhos diferentes. Ambos grandes demais. Emo 2 usava uma calça preta justa que não combinava com seu corpinho roliço. Parecia desconfortável. Seus cabelos eram muito pretos cobertos por um gorro estilo peruano que marcava uma franja espessa deixando-a com um ar idiota, palerma. Com seus dentes grandes, era a mais articulada, tinha voz grossa e gestos abruptos, usava um tênis Nike de cano alto multicolorido, um casaco cinza com estampas de caveirinhas amarelas e tinha um alargador na orelha. Emo 2 e Emo 3 tinham piercings no supercílio.

Fico imaginando se eles perceberam quando eu peguei meu celular, liguei o modo gravador e ditei todas essas informações que acabei de transcrever.

Acho que eles e o velhinho eram anjos, espiões do Senhor Deus, para fazer levantamento do estado mental daqueles que vivem debaixo do sol.

Como eu sou estranho.

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25 comentários sobre “Sim, amor… anjos existem.

  1. Ivanzitooooo lindo do meu coração, como vc presta atenção nos detalhes, eu tb presto nas coisas que me interessam.Tadinho do velhinho, deve ter se espamtado hahah e eu até gostei dele por sua descrição e me deu dó não sei porque…

    Bjs!

    1. Dé,

      Eu sou terrível para detalhes. Mais do que eu gostaria de ser. Muito mais. Você se emocionou porque é sensível. O velhinho era uma gracinha.

      Beijinhos.

      Ivan.

  2. Eu gosto de velhinhos, mas de velhinhos autênticos, daqueles doces e amáveis, que não se preocupam em combinar cores (rs). Acho que quando se atinge esse estágio de serenidade, na vida, pode-se usufruir de tal privilégio.

    Já, os emos (também nada contra nem a favor), carecem de toda a sinalização visual possível.

    Estranhos são os outros, Ivan.

    Beijo, boa semana.

    ℓυηα

    * Tive que pedir ajuda para o Tio Micha, com a “bracatinga” (subfamília das Mimosóideas, né? :P)

    1. Luninha,

      Eu não convivi com meus avós. Os pais do meu pai, só tenho lembrança de tê-los visto umas 2 ou 3 vezes. O pai da minha mãe eu o conheci cego e na cama. Minha avó me assustava porque ela fumava, e ela não gostava nada quando eu a chamava de tia, em vez de vó [eu não conseguia acertar!]. Assim sendo, minha relação com os idosos foi sempre muito rala, débil. Agora depois que eu fiquei grande [eu fiquei grandinho, sabia?], eu tenho procurado resgatar esse tempo. Viver com meus pais tem sido fabuloso para isso, e, agora, não perco tempo para ouvir e observar os velhinhos. Eles são demais.

      Beijocas e um abraço ao tio Micha.

      Ivan.

  3. Duas bracatingas, seu Ivan? Bra-ca-tin-gas? Parece coisa de RG de cinco dígitos, né não? francamente…
    te amo assim mesmo.
    beijos

    1. Ô Suzi, amor meu, você tem perninhas de bracatingas também? :-/

      Beijocas, minha flor.

      Ah, não vá ver The Book of Eli. Você vai odiar. Apesar de Denzel, apesar dele.

  4. Ivanzito,

    Eu também observo pessoas no ônibus e gente que fala alto demais me stressa ¬¬’

    Adoro sua descrição!

    E sabe, o velhinho deve ter ficado mais ‘chocado’ com as roupas dos emos do que com o ‘filha da puta’.

    Aquele cabelo me dá nojo, parece sujo o.o

    Beijo,
    Nara

    1. Narinha, minha flor.

      Eu receio que meu post não foi muito bem compreendido. Acho que a viagem foi mais minha do que de qualquer outra pessoa. rsss
      Fato é que não quis denegrir ou atingir tribo alguma. Eu tenho as minhas preferências, meu estilo de vida [que não é lá grandes coisas], mas em geral sou muito acolhedor das diversidades. Um bom exercício que sempre me ajuda a ser tolerante é abrir a caixa de fotos antigas aqui em casa. É tanta coisa estranha que a pergunta que eu mais faço é: Como é que eu pude? rss
      Eu pude, eu posso, nós podemos.
      Eu só queria mesmo era falar de mim e de como eu observo a vida que me cerca.

      Beijinhos, meu bem.

      Ivan.

    1. Luana,

      Se for UNO eu bem que gostaria. Eu A.D.O.R.O. UNO… será que eu sou emo e não sei?

      Mas, querida Luana, será que rolou a impressão de que eu tenho problemas com os meninos e meninas com seus cabelos lambidos e escorridos? Não tenho tá? rsss Não mesmo!

      òtima semana pra ti. Beijocas.

      Ivan.

  5. Também achava que anjos existiam. Agora tenho dúvidas. Acho que eles até podem estar entre a gente, interagindo, blá,blá, blá…mas que são convenientes,ah..são!!
    Pessoas-anjo são aquelas que entram nas nossas vidas por acaso, nos amam, nos acolhem, nos protegem e saem dela da mesma maneira como entraram: sem avisar bem o porquê!!
    Choro quando isso acontece. Mas como disse o Chico Xavier: “Tudo isso passa!!”

    Anjos existem…mas será que também não teriam um pouco de “diabinhos” dentro deles?

    Fica aqui a minha dúvida…

    Um beijo!

    1. Sol,

      Eu acredito agora, não sei se acredito daqui a pouco. Entende? Eu sou um aprendiz. Sou cético, mas me mantenho maleável, porque eu não sou feliz quando sou cético. Bendito os que têm fé. Esses são muito mais felizes.
      Eu tenho dúvidas, e se Deus existe, e creio que exista, ele vai ter que ter muita paciência pra me responder muitas perguntas no dia em que a gente se encontrar.

      Beijos.

      Ivan.

  6. Oh, Adorei a descrição do velhinho… fiquei imaginando a cara dele olhando pra os emos ( que meu Deus, mesmo que de boca fechada, já recebem olhares de espanto)…

    Ivan, quando teremos outros posts sobre ” Azar perfeito” tô sentindo uma falta das gargalhada que eu dou aqui na frente do pc!
    Devo pensar que vc não anda mais pelo site, ou encontrou uma bem legal?
    Bjos querido!
    Boa terça!
    Terça… o diazinho sem graça rsrs!

    1. Minha flor,

      Eu também estou morrendo de saudades do azar perfeito. Sabe, elas não são lá as grandes candidatas, mas, poxa vida, elas me querem, não é mesmo?
      Eu acredito que em poucos dias, as coisas aqui se aquietam e eu vou lá ler o que o amor tem a me oferecer. Ah, e eu compartilho contigo. Prometo!

      Bitoca.

      Ivan.

  7. Eu sou PÉSSIMA com detalhes.
    Mas também com a profusão de coisas que essas pessoas tavam usando, era muita informação pra minha pobre cabeça!

    Beijos

    1. Oi lindeza,

      Bem, em face do que você diz, eu posso me considerar o homem mais feliz do mundo, pois detalhes me atraem.

      Beijocas.

      Ivan.

  8. Olá, Ivan!
    Como sempre, um ótimo texto!
    Deu prá ver que você é bem atento aos detalhes. Descrições detalhadas e ricas rompem o paradoxo do tempo e fazem a gente ficar invisível. Eu mesma fui teletransportada para o dia 05, no ônibus.
    E aí, “presenciando” a cena fiquei com uma dúvida: como você sabe que o amigo, para quem Emo 1 ligou, era Emo, também?
    Um beijão!
    D.

    1. Queridíssima D,

      É verdade, eu sou bem atento a detalhes e você pelo jeito mais atenta ainda. Ok, vou contar um segredo. Eu vejo pessoas mortas e pessoas do outro lado da linha. Não.. mentira. No fundo eu preciso é aprender que ao se resumir um texto é muito importante não deixar de fora elementos que poderão gerar questionamentos inteligentes como o seu. Quando Emo 1 ligou para Emo 4 ela disse algo assim: “Emo 4, você é um emo muito filho da puta…” Como eu já tinha usado filho da puta no texto, eu acabei deixando esse ‘mimo’ de fora, e com isso você sabiamente questionou acerca das evidências sobre Emo 4.

      Beijão em voce, minha flor.

      Ivan.

  9. Ivan e os Textos Alucinógenos!!!

    Esse bem que poderia ser um dos slogans pra teus escritos!
    Porque?
    São viciantes, divertidos, instingantes e produzem alterações de comportamento!

    Ecstasy literário – CUIDADO!

    Este também pode ser um aviso aos mais incautos e displicentes – leitores casuais ou acidentais.

    ATENÇÃO!
    Ao ler os textos deste blog você poderá sentir alguns destes (ou todos) efeitos colaterais:

    Necessidade de consumo constante e em doses cada vez maiores – vicia rapidamente!
    Intensa euforia, risos e gargalhadas intermitentes, constatação do óbvio porém com nuances de surpresa, diálogo interno e às vezes discurso externo sem interlocutor – falando e rindo sozinho, sensação de relaxamento ou inquietude, espasmos reflexivos, identificação e afinidade, sensação de felicidade e bom humor, além de outras esquizitices ainda não documentadas.

    Adoreeeiiiiii!!!

    Agora, totalmente Dependente!

    Mil beijos!

    1. Leníssima!

      Sempre me impressionei com pessoas que fazem do seu nome um adjetivo. Melhor ainda quando acrescentam sufixos como -íssimo e -érrimo para formar o superlativo absoluto sintético dos adjetivos. 😛
      Não se assuste! É que você mencionou que meus textos são alucinógenos e eu nao queria te decepcionar ao responder teu comentário. rsssss
      Querida, eu sou um brincalhão um aprendiz nesse mundo da escrita. De qualquer maneira, fico muito agradecido por seus elogios superlativos. Não me sinto tão habilidoso assim,mas me contento com sua alegria.

      Divirta-se sempre.

      Beijos.

      Ivan.

  10. Ivan,

    Você decididamente tem que decidir se a gente comenta sobre o texto ou sobre a imagem, porque eu não consigo dar devidamente a atenção para os dois…

    Vamos lá, o velhinho é o máximo, adoro conversar com eles, e o jeito dele de sentar é igual ao do meu pai (e de todos os meus tios, assim como era o do meu avô ^^).

    Quanto aos emos, ficou claro sim, que você não tem nada contra, nem a favor, o que você tem que entender é que tem leitores que tem algo contra, sim. rs

    A imagem, coisa mais linda! Não sei onde você arruma essas coisas. Já que seus pais te conceberam pra acreditar em mágica, me ensina alguns truques?

    beijo

    1. Boca,

      Essa minha relação com texto e imagem tá parecendo história de um coração que ama dois. Quando estou com uma, pensa na outra, quando estou com a outra penso na uma. Tá bom, exagerei! Mas, olha só, eu não consiiiigo [comendo as unhas]! Seja boazinha, perdulária feito eu, e comente as duas coisas, ou uma só, ou não fale porra nenhuma.

      Vou ensinar truque: quando você estiver soluçando, coma uma colher de sopa de açucar e o soluço passa. Se não passar, vc diz: Ivan, seu sacana. Isso é um truque.

      Beijinhos.

      Ivan.

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