Manga, linha e agulha

Cenário:

O quarto dos meus pais.

Prólogo:

Eu estava trabalhando numa tradução. Dei uma pausa, fui à cozinha, peguei uma manga no cesto de frutas, um prato, guardanapos.. .saí caminhando pela casa. Entrei no quarto deles.

Mais detalhes:

Pai sentado na cama, perto da janela tentando enfiar uma linha na agulha. Uma calça dele sobre a cama.

Mãe dentro do closet, colocando um casaco e meias.

Eu em pé, apoiando o prato numa cômoda, faço um furo na manga, vou espremendo e chupando no velho estilo aprendido ainda quando criança.

Diálogos:

– “O que o senhor tá fazendo com essa linha e agulha?”

Mãe atravessa a conversa.

– “Seu pai tem mais de 100 calças e cismou que quer usar aquela com a barra desprendida.”

– “Eu tenho tudo isso de calça? Eu quero usar essa calça, não posso?”

– “Você deve ter umas 20. Deixa isso aí que amanhã eu faço essa bainha pra você”, replica a minha mãe.

Pai continua seu trabalho de costura, não dando a mínima. Olha pra mim e diz:

– “O que você está fazendo comendo as minhas [ênfase em minhas] mangas, aí sujando as minhas roupas.”

Eu descubro que é possível soltar uma gargalhada e chupar manga ao mesmo tempo.

– “O que você queria que eu comesse? Torresmos?”

– “Não. Aqueles torresmos também são meus.”

– “Aurélio!” Diz minha mãe com a voz mais alterada. “Pegue outra calça!”

– “Desde quando o pai sabe costurar?”

Ele ainda tentando enfiar a linha na agulha responde:

– “35 anos de Marinha.”

Solto outra gargalhada com fiapos de manga entre os dentes e volto a trabalhar.

. . . . . . . .

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21 comentários sobre “Manga, linha e agulha

  1. A manga é dele, o torresmo é dele, as calças (100 ou 20, tanto faz, enfim) são dele, e a cara de boba, imaginando a cena, é minha.

    Lindo, lindo! ^^

    Beijinho.

    ℓυηα

    1. Boca,

      Eu queria escrever um livro sobre meu pai enquanto ele ainda está aqui. Ele é uma figura! 🙂

      Saudadela = Saudade de mortadela?

      Beijinhos.

      Ivan.

  2. Seu pai é muito parecido com o meu, então deve ser muito engraçado conviver com ele…embora em alguns momentos a rabugice seja quase insuportável!!
    Enfim, o que seria de nós sem essas histórias fabulosas?

    **As mangas também são todas minhas aqui em casa!!!rsrsrs

    Beijos

    1. Linda Sol,

      Nossos pais são machos com malemolência. São baianos, são mulatos, são pequenos coronéis com coração de marinheiros. Eu me esbaldo com seu Aurélio e suas coisas divertidas. Hoje eu ri porque reparei que quando ele quer enfatizar uma palavra ele fala em sílabas, pausadamente e acompanhando o som de cada sílaba com as mãos… hahahaha… A-DO-RO.

      Aqui em casa nada é meu. Mas, eu pego sem pedir.. .rssss

      Beijinhos.

  3. Ha, então tudo é dele na sua casa, dos torresmos às mangas? Ora pois, rsrs…

    Essa cena do Jean Grenouille espalhando o “perfume do amor” é sinistra pra caraca! De tirar o fôlego.

    beijão

    1. Lindinha,

      É tudo dele! rsss

      Esse filme é completamente sinistro. A suruba que começa depois que ele espalha o tal perfume é coisa de outro mundo.

      Beijinho.

      Ivan.

  4. É, Ivan… esse filme me impressionou muito… é de uma beleza macabra. A ideia de tal gênio ao mesmo tempo monstruoso e inocente é perturbadora… e a aproximação disso com a música (a tal 13.a nota do acorde)… no início do filme eu quase passei mal com tantas imagens fortes remetendo aos sentidos primitivos, tanto sofrimento e pobreza… e no fim na cena da foto e na suruba posterior, e depois na decisão da morte, eu já estava absorta. Phodástico.

    Eu não sabia que você morava com seus pais. É divertido, hein? Eles parecem ser figuraças. 🙂

    beijocas

    1. Ceci,

      Eu moro com meus pais. E eu nem conto aquele caô que são eles que moram comigo. Ha!
      Na essa altura da minha vida eu nao imaginava como seria legal conviver com eles. Hoje é uma opção consciente viver com essas duas figuraças. Fantástico.
      Olha só, o filme do Perfume, do assassinato. O que é aquilo? Engraçado como nós dois encontramos semelhanças no olhar crítico dos filmes. I felt that movie on my croins and crouch! Você também é uma figuraça na minha vida, meu bem. Uma bela amiga.

      Bitocas.

      Ivan.

    1. De barba.

      Por que perguntas? Pensou na manga. Fia, a técnica do furinho é indolor, indelével, indene, incruente e insujável!

      Meu pai ama com implicância. Será que eu puxei a ele, cabeção?

      Beijos.

      Ivan.

      1. Vc deve ser a cara dele!
        Na minha infância, as férias de final de ano na casa do pai do meu pai… Quintal cheio de mangueiras, pés de goiaba, pés de jabuticaba e terra, muita terra… Terra vermelha de encardir a planta do pé, sabe… E tinha manga de vários tipos: espada, coquinho, coração de boi… Eu fazia o furinho na manga coquinho e mesmo assim eu me sujava, pracarai…
        A-D-O-R-OOOOOO!!!

        Beijo seu implicante

        SV

        1. S.V., meu bem.

          Esses nossos comentários falando da casa do pai do pai do pai do meu pai só dá a maior bandeira. O povo vai ficar achando que a gente tava lá na tomada da Bastilha, que colocamos no envelope a carta de Pero Vaz de Caminha, e last but not least, vimos o dia em que Uga Uga pôs fogo nos gravetos. Pare com esse negócio de lembrar de infância owwwwww.

          E eu nao sou implicante não!

          Beijinhos.

          Ivan.

          1. Ué…
            Só quem nasceu de partogenese que não tem pai do pai do pai do pai e etc e tal…
            Conhece algum ( a )?
            E eu adoraria ter o poder de estar mesmo na tomada da Bastilha, passar a língua para selar a carta de Pero Vaz de Caminh e hummmmm os uga uga com aquela tanguinha e corpinho puro músculos… A-D-O-R-OOOOO!!!
            É claro que gostaria também de ter outros poderes… mas ce la vie…

            Vc realmente não é implicante…

            SV

  5. A Delícia do Simples

    Tem coisas que emolduram a idade e, de um jeito singelo e raro tecem a “felizidade”…
    São eles, voltando a ser crianças, em sua mais tenra maturidade, nos dando o gosto de entender a infância ao avesso ou, de um jeito gostoso, sentir o gosto de cuidar deles, como eles de nós, no começo.
    E como é bom e hilariante, ver suas teimosias desafiando os limites que o tempo impõe aos corpos! E é tão gratificante percebê-los com novos olhos, pois também o tempo nos ensina a vê-los de um jeito diferente: não mais como heróis imbatíveis, semideuses e hierarquicamente quase intocáveis. Ficaram intensos e doces, carentes, ranzinzas ou mesmo só humanamente gente: engraçados em suas estranhezas e sandices…
    Este é o gosto de quem viveu muito e ainda quer mais: Os desafiantes do tempo!
    Mas há, em todo simples, uma magia que também surpreendente: não se sabe ao certo, quem mais estraga quem: se eles aos netos, tentando compensar as tolices e estresses da paternidade amadora ou se os netos à eles, deixando eles brincarem de pais mais soltos e consentidos, já de dever cumprido.

    Saudades dos meus…
    Beijos nos teus…

    Lembrei dos meus anjos e fiquei com lágrimas nos olhos…

    Mil Beijos, lindo!!!

    LeNíSsIMa

    1. Leníssima,

      O simples é completamente extravagante. Os complexos jamais entenderão o sorriso no rosto dos simples.

      Você definitivamente precisa iniciar um blog. Sua percepção é ótima, e tem a capacidade de escrever com clareza. Faça isso!

      Eu estou cuidando e sendo cuidado por esses anjos em minha vida. Que privilégio o meu. É amor em dose de elefante.

      Beijinhos.

      Ivan.

      1. Ivan – Criando um Monstro!

        Olha, eu já sou como bêbado na ladeira: o tropeço é apenas uma desculpa pro tombo já iminente! Então, não elogia muito que eu já me acho! Imagina só, eu amooooooo escrever! É como desnudo minh’alma… e olha, ela adora andar poraí peladinha! …quem não gosta de liberdade?
        Minha alma poooode!
        Já basta usarmos as roupas, que fazem parte da maquiagem da nossa “persona” mas, a alma não precisa dessas coisas! Se bem que a maioria das pessoas a escondem, talvez por acharem que tem almas feias… sei lá!
        Eu acho a minha lindaaaaa e, por qualquer “vem cá meu bem!” ela tá fazendo streap tease e verseando palavras! Rsrssssr…
        Coisa de alma livre e exibicionista!
        Sou sim apaixonada por minhas frangâncias extravagantes, dá licença?!

        Vou providenciar isso HOJE! (o blog) e vc, meu lindo, é meu convidado Vipíssimo.

        Aceito sugestões de nome para o Blog… se bem que tenho algo em mente, bem mitológico ou místico (adoro)… mas, conto com sua participação!

        Beijos amore.

        1. Querida Leníssima,

          Estou, e acredito que outros leitores do meu blog também estão, entusiasmados com o seu entusiasmo. Torço para que comece em breve a por pra fora num blog tanto desejo e amor pelas palavras. Você tem todo o meu apoio. Pense bem sobre o nome do blog. Deixe a ideia vir apenas de você. Se por acaso nao lhe aparecer nada que lhe traga certeza, então quem sabe eu possa dar sugestões.

          Feliz por voce, meu bem.

          Beijinho.

          Ivan.

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