Álcool Gel e Spray de Pimenta

Como sou um cidadão de alta categoria, um ser superior e contribuo para a diminuição do nível de carbono lançado na atmosfera [além de separar o lixo e não pegar sacolinha plástica no supermercado], tomei um ônibus para ir ao dentista. Se você me conhece um pouco, sabe do meu desdém por pessoas que violam protocolos, pessoas que quebram as regras básicas fundamentais da etiqueta, enfiando o dedo, de forma flagrante, naquilo que sobra de nosso espaço individual, sanidade e paz interior. A bíblia não te diz isso, mas essas regras foram criadas no começo dos tempos, juntamente com o sol, a lua e as estrelas.

Pois, então, eu estava sentado em um ônibus incrivelmente vazio. O assento ao meu lado estava vago, assim como várias fileiras à minha frente, e outras atrás de mim. Eu bebericava calmamente água numa garrafinha, lendo As Aventuras do Pequeno Nicolau, e me deleitava quietamente na paz e no sossego. Deleitar-se quietamente é sempre uma má ideia. Se você quiser provocar o destino, ou pelo menos acolher um violador de protocolos de braços abertos, basta sentar num canto e deleitar-se quietamente.

Um sujeito entra no ônibus, ignora completamente todos os bancos vagos, e, como se fora um míssil teleguiado, mira o banco no qual estou sentado.  Eu deveria ter espalhado minhas coisas no assento ao lado (meu livro, a garrafinha d’água, ou um lenço de papel usado), mas, infelizmente, eu não pensei nisso na hora.

Ele senta-se ao meu lado – quebrando aquela regra fundamental de que em transporte público você sempre deve visar proteger o máximo de espaço pessoal (coletivo) – e em seguida (a ironia, oh a ironia, sempre ela), se ajeita no assento de forma a deixar um espaço entre nós dois. Escuta meu amigo, pensei, por que se preocupar em deixar uma distância? Se você vai invadir o reino tranquilo do Ivan, quando poderia escolher uma fileira inteira de bancos só para você, pelo menos faça essa merda direito, sente grudadinho em mim, leia meu livro comigo e me ajude a tomar toda essa água da garrafa.

Em seguida ele tira uma maçã do bolso, dá uma mordida enorme e começa a mastigar com a boca aberta, cuspindo, triturando e salpicando, enquanto  pedacinhos  reluzentes de maçã voavam pelo ambiente feito estrelas cadentes ou balas traçantes, numa demonstração comovente de elegância.

Como se não bastasse, ele começa a respirar pesadamente. A gripe suína no seu pico, eu pensei. Claro que outra regra fundamental é que você não respire pesadamente em transporte público, a menos que, por exemplo, o veículo esteja vazio como aquele ônibus estava, e você decida passar o tempo fazendo abdominais no meio do corredor. Enfim, ele respirava fortemente, e eu comecei a sentir a sua respiração em meu braço. Foi nesse momento que eu desejei ter uma garrafinha de álcool gel, ou até mesmo um spray de pimenta.

Eu me afastei o máximo que pude dele, e enfrentei aquela situação através de um sonho, imaginando um belo cenário. Eu estava sentado sob uma árvore linda, ao lado de um rio cristalino na borda de um campo de capim-cidreira, uma taça de vinho numa mão, um livro na outra, a mulher amada com a cabeça em meu colo. Os pássaros cantam, as borboletas dançam entre os raios de sol, não há outra alma humana viva por perto e o mundo está em completa paz. Ao meu lado, sobre a relva, descansam uma garrafinha de álcool gel e um spray de pimenta. Só por segurança.

7 comentários sobre “Álcool Gel e Spray de Pimenta

  1. E claro, você com essa doçura e educação, não podia simplemente mandá-lo a merda, não é verdade? Por que pacificismo? Faça as Cruzadas da educação e mate esse ímpio! Eu, como tenho interesses mais profundos e importantes, gostaria de colocar este ser na jaula e estudar o que leva uma besta fera a se sentar ao lado de alguém quando existem vários espaços livres. Certamente ele achou você tão charmoso quanto a Nina.

    Aliás, ela tá bem de saúde? 😉

    beijo

    1. Boca, minha linda!

      Deixa eu te contar uma coisa: eu nem sempre sou tão doce assim como você conhece. Meus diabinhos são do alto escalão tático de ataque do Comando do Hades. Você não gostaria de vê-los em ação! 😛

      Quanto à Nina, eu pergunto: Mamãe vai bem?

      Ha!

      Beijinho.

      Ivan.

    1. Oi querida!

      Eu sinto que você é do tipo que quanto mais conhece o ser humano, mais gosta dos seus bichinhos. Acertei? rsss

      Beijoca.

      Ivan.

  2. Pára o mundo que eu quero descer!!!

    Ah, Ivanzito…

    Compreendo sua indignação e repulsa, mas te pergunto (e afirmo) meu bem, porque existem os corruptores? porque os corrompidos são omissos! Há!

    Vejo a admiração das pessoas quando eu entro num ônibus, lindamente bem tratada, perfumada, sorridente e ao cumprimentar o motorista e o cobrador com um sonoro – Bom dia! Boa Tarde! vejo os olhares espantados e curiosos observando detalhadamente minha impecável desenvoltura e educação BÁSICA.
    Claro, sou vasculhada com os olhares mais controversos (de inveja – as bagacentas, de interesse – os muchachos, de desdém – as concorrentes) hahahaha!!! e me divirto!

    E eu, totalmente classuda, me sento onde haja menos gente possível e se, por uma ingrata ação do destino, meninos catarrentos, mulheres desgrenhadas ou homens fedidos escolhem roubar meus 30cm de espaço preservado, ah… meu lindo, não tenhas dúvidas, levanto e vou pra outro lugar! E se não tiver? Fico de pé, exibindo minha belezura intacta (fazendo exposição máxima da figura) e maravilhosamente olho por cima dos ombros totalmente imune, distante e preservada do abjeto deixado pra trás.
    Submeter-me? só em casos EXTREMOS.

    P.S.: Conceito próprio de Finesse da Lena:

    Cláusula Única – Preservar prioritariamente o espaço respirável isento de maus odores, restos de comida voantes, tosses e espirros mal cheirosos e demais contágios por aproximação súbitas ou contatos propositais, inclusive utilizando-se de estratégias fuga e/ou abandono total do local!

    Simmmmmmm, eu odeio metrô lotado!!! e ônibus cheio em dia de chuva é a trevaaaaa!!!

    VC É UM LINDO!!! Massss… se o desconfiômetro básico do outro faltar, sai correndooooooooo!!! kkkkkkkkk

    BEIJUSSSSSSSS

    P.S1.: Eu to ótemaaaaaaaa…. linda e loura fatale! Há!
    Te mete!

    1. Oi, minha sempre animadíssima e hyper amiga Leníssima!!!

      Eu acho interessante, mas entre me levantar e mudar de lugar, e andar com um spray de pimenta para mirar nos olhos de indivíduos assim, eu acho que ainda fico com a segunda opção.

      Deixa eu confessar uma coisa, em condições normais, ou seja, com poucos assentos disponíveis nos ônibus, eu me sinto muito rejeitado quando não escolhem o assento vago ao lado do meu. Me faz recordar da infância, quando me deixavam de fora na escolha dos times, ou, na menos pior das hipóteses, era o último a ser escolhido.

      Nessa história do ônibus deserto, confesso que realmente foi sinistro o sujeito escolher entre tantas opções, a menos provável. Será que Deus estava me dizendo: “Você não fica todo magoadinho quando não escolhem sentar a seu lado?” Bem, eu espero, ou melhor, acredito que isso não viria de Deus, porque até onde o conheço, ele não seria tão sacana como nós… rsss..

      Bem, pra resumir esse bafafá, o fato é que vou realmente me preparar para usar o alcool gel e o spray de pimenta na próxima vez… hahaha

      E você tá poderosa na auto-estima! Quando crescer quero ser como você! rssss

      Beijos, meu bem.

      Ivan.

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