Pelo menos Ariano Suassuna se identifica comigo.

Embarcando no aeroporto de Cuiabá retornando à Curitiba após 3 dias de trabalho na cidade. Coloco minha bagagem de mão na esteira do raio-x.

–      Senhor, o que é isso que o senhor está carregando, senhor?

–        Isso o que?

–        O que o raio-x detectou em sua bagagem de mão.

–        Ah… uma abóbora.

–        Não entendi!

–        A b ó b o r a…

[dito baixinho entre os dentes para que nenhum dos milhões de passageiros que aguardavam a vez de passar seus pertences pelo raio-x ouvisse]

–        ABÓBORA????

[berrou o rapaz, de tal modo que todo mundo na fila me olhou como se eu fosse um retirante. E juro para vocês que eu conseguia ver uns balõezinhos sobre a cabeça de cada um com a palavra ABÓBORA escrita e acompanhada de pontos de interrogação].

–        É… filho da puta

[também dito baixinho entre os dentes]

–       O senhor não pode levar essa coisa a bordo não, senhor.

–        Qual o seu nome?

–        Josebaldo de Jesus.

–        Pois, então Josebaldo, é o seguinte: meu pai é um homem moribundo que não tem mais que duas semanas de vida e ele tem um desejo antes de morrer que é comer uma abóbora Jerimum aqui do Mato Grosso.

–        E é?

–        É.

–        Mas, o senhor não pode levar essa coisa a bordo não. O senhor tem que levar na mala.

–        Josebaldo, eu não tenho mala a não ser essa aí com a abóbora dentro. Eu fiz essa viagem só pra buscar a abóbora do meu paizinho que tá morrendo.

–        Só falando com a aeromoça.

–        Eu falo.

–        Não, senhor. Sou eu quem falo com ela, senhor. Enquanto ela não liberar, eu não libero a abóbora.

Aeromoça sendo consultada pelo rádio:

–        JJ3317 temos um P2 aqui no terminal, câmbio!

–        Aqui é JJ3317. Que tipo de P2? Câmbio!

–        Uma abóbora! Câmbio!

–        Uma o que? Câmbio!

–        Abóóóóóbora, câmbio.

–        É pesada? Câmbio.

–        Tem peso de um menino, câmbio.

–        Estou indo verificar, câmbio.

Aeromoça olhando para a abóbora e conversando comigo.

–        Senhor, é norma da empresa não permitir gêneros alimentícios a bordo porque podem causar forte cheiro, ou vazar…

–        Com licença, qual o seu nome?

–        Sou a chefe de cabine Ivone.

–        Pois, então, chefe de cabine Ivone, é o seguinte: meu pai é um homem moribundo que não tem mais que duas semanas de vida e ele tem um desejo antes de morrer que é comer uma abóbora Jerimum aqui do Mato Grosso, e ademais, essa abóbora é quase uma havaiana, porque não tem cheiro, e não deforma, portanto, não vaza, entende?

–        Entendo, senhor, mas… Bem, eu vou liberar o embarque da abóbora, mas o senhor vai ter que assinar um termo de responsabilidade!

–        Valeu, chefe de cabine Ivone! Quer dizer, muito obrigado chefe.

Chego a casa, beijo meus pais e falo a meu velho:

– Trouxe a abóbora que você pediu para procurar. Deixei na cozinha… Você não tem ideia o trabalho que isso me deu. Nunca mais eu trago essas tranqueiras de viagem…

Alguns minutos depois ouço meu pai dando altas gargalhadas e dizendo pra minha mãe:

Hahahahaha… Ele não entende nada de abóbora, aquilo ali não é abóbora jerimum nem aqui, nem na China…

–        Filho da puta [entre os dentes]

******

Nota: Você deve estar se perguntando o que o nome do maravilhoso Ariano Suassuna está fazendo citado nessa balela. Pois bem, há alguns meses atrás eu participava de uma aula-espetáculo do grande mestre aqui em Curitiba quando ele citou a sua epopeia ao tentar embarcar no aeroporto dos Guararapes em Recife com a espada que utilizaria em sua posse na Academia de Letras no Rio. Se eu pudesse abraçar Ariano, o que por si só já seria para mim uma grande glória, eu também diria a ele que a abóbora de painho também me foi um empenho danado pra embarcar.

Toda vez que penso em Ariano, eu tento reavaliar o quanto estou abraçando e/ou desprezando a nossa cultura. Ele sempre será, para mim, o guardião, o fiscal, o inspetor mor da cultura brasileira. Não escrevo isso em tom de ufanismo, exclusivismo ou chauvinismo, pois não tenho hostilidade em relação a nenhuma outra cultura, mas é preciso para quem ama qualquer tipo de arte, e deseja por ela se expressar, querer sempre fortalecer a cultura de seu país.

Que a nossa cultura fique forte e pujante o suficiente para que qualquer outra cultura que venha de fora seja não uma influência que nos descaracterize e nos corrompe e passe a ser uma incorporação que nos enriquece.” Ariano Suassuna

Leia aqui um textozinho de Ariano em que ele escreve um tiquinho do muito que contou sobre a posse na ABL.

8 comentários sobre “Pelo menos Ariano Suassuna se identifica comigo.

  1. Puta merda, Ivan [dito a plenos pulmões]

    Texto ótimo, ótimo, ótimo.

    Dei risada aqui, e essa sim, entredentes porque não podia alarmar o pessoal do trabalho…rs

    O Suassuna é uma coisa a par, praticamente tem que ser citado o nome dele em parenteses, porque ele é sempre algo que significa e acrescenta, mas estando inserido na nossa cultura, fica além dela.

    Pena que a ABL não esteja mais tão honrosa para receber esse grande homem.

    beijos-sabor-abóbora! (a lá Deia…rs)

    1. Oi Boca!!

      Poxa, fico feliz que você tenha gostado dessa historinha! 😛

      Eu curto muito o Ariano, há muito tempo, desde quando eu era molequinho… [viu quanto tempo?]. Eu sou um grande admirador. Você precisa assistir a uma aula-espetáculo. Pode ser até mesmo no Youtube! Imperdível!

      Beijos sabor de textos bons! 🙂

      Ivan.

  2. Meu não sei porque insisto em ler teu blog, no meu horário de trabalho.
    Ele me alivia depois de um dia daqueles.
    Mas putz a gargalhada que dei, foi fora de série.
    Como resposta a cara que fizeram para mim : _ Uai, quando estou muito estressada, eu dou risada para aliviar a tensão.
    Bjus da Ori.

    1. Ori,

      Eu sei porque você insiste em ler o blog no horário de trabalho. É porque ele foi feito pra gente assim como você, que gosta de ler besteira no horário do trabalho.. haha

      Não sei se serve como consolo, mas eu o escrevo quaaaaaase que sempre, também em horário de trabalho!

      Obrigado por seus comentários.

      Beijinhos.

      Ivan.

  3. Lido, e apreciado.
    Admiro demais pessoas como o Suassuna, é mais que um ‘admirar’, é um gostar!

    Abrçs.

  4. Oh meu caro, besteira não, não, não … ainda mais com Suassuna no meio,melhor no princípiosó pode ser cultura … huashuahsuhaushuahsuahs
    A frase que eu mais gosto dele : O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.
    Ariano Suassuna
    Beijos da Ori.

  5. LiNdAs NuAnCeS…

    Meu lindo, o que me enriquece e alegra é perceber que temos raras jóias espalhadas pelas almas de alguns que, por não estarem na ABL, além de nos brindarem com sua luz, estão mais acessíveis a simplórios mortais como eu. [Graças a Deus!]

    São anônimos e amigos, os coadjuvantes que tornam a vida mais colorida e interessante! Figuras mescladas, pitorescas e geniais como vc, que em sua flexibilidade criativa e “despretenciosa”, nos brinda olhos, ouvidos e sentidos (quando rimos sozinhos e nos divertimos com o som de nossa própria gargalhada).
    É um deguste! ver nos teus mosaicos textuais, pedaços reluzentes de Clarice Lispector, Suassuna, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Jabor, Bial, Veríssimo e tantos outros, num psicodélico vitral de passagens, narrativas e citações instigantemente glamurosas!

    Sim! eu amo o que você escreve, porque cada um absorve e percebe o mundo à sua volta em consonância com o que vai dentro e, ao exteriorizar, faz o mundo seu e dos outros menos conciso, mais pluralizado.

    Esse é você: um “imortal” com sobrenome Santos, que torna, em particular, minha vida e de seus satélites, mais iluminada, exuberante e divertida!

    Mil Bejux!!!! (gosmuidocê)

  6. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk rindo muito…

    Abobrinha, aposto que trouxe isso pra curtir o “dia das bruxas” kkkkkkk

    bj

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