Retorno ao velho altar

– Olá! Quanto tempo.

– Olá, árvore guardiã.

– O que aconteceu que nesses últimos longos dias só temos visto por aqui o teu espírito…

– E o espírito dela! Irrompeu abruptamente a franzina erva-mate, que logo tratou de baixar suas folhas ao ser encarada de tronco pela árvore guardiã.

– Como eu ia dizendo, teu espírito está presente, e sim, o dela também, disse a imensa árvore dando uma leve olhadela à erva-mate que dessa vez não teve outra opção a não ser conter o ímpeto.

– Acho que tem sido o frio, grande árvore mãe.

– E as festas! Apressou-se mais uma vez em dizer a estabanada erva-mate.

– Festas? Que festas? Indagou o menino.

Recuperando de novo a condução do diálogo, enquanto afundava as raízes da erva-mate para que ela se mantivesse calada, a árvore guardiã continuou:

– Vossos corações têm festejado a vida e o amor, e aqui, mesmo que apenas por meio de observar vossos espíritos que conosco habitam continuamente, temos visto que andam celebrando…

– É. Nosso amor cresceu.

– Vosso amor é grande desde o começo, menino dos olhos de folha. Dantes mesmo dos tempos presentes. Já não é de hoje que ouvimos os risos, os olhares, os afetos entranhados de vocês dois.

– Vocês, minhas amigas árvores, sabem de muita coisa. São como as paredes dos prédios antigos que guardam segredos longínquos. Vocês sabem de muitas coisas…

– Nem sempre sabemos por saber. Às vezes sabemos por sentir. Sinto, por exemplo, que não é o ar quente e o dia de céu azul e sol mostrado que lhe trouxe de volta ao bosque.

Os olhos de folha do menino apenas fitaram a grande árvore, enquanto a erva-mate sussurrava e suspirava entre folhas e nós de galhos: “Ela tem toda razão dos mundos para amar esses olhos…” Para sua ventura, apenas o menino a ouviu e lhe retribui um sorriso meigo.

– Sinto saudades dela, mãe árvore.

– Como pode sentir saudades de quem vive em você? Olhe àquelas árvores que estão na descida do terreno, próximo ao ribeiro.

– Árvore guardiã, só existe uma árvore naquela direção.

– Olhe com o coração, rapaz!

– Apenas uma árvore…

– Você se recorda de quando escreveu o nome da sua menina em uma árvore?

– Sim, claro.

– Você sabe onde está essa árvore?

– Junto ao ribeiro.

– E era ela a única árvore ali, ou você ficou em dúvida em qual iria escrever?

Ao ouvir isso o menino saiu em disparada em direção ao ribeiro e precisou se apoiar na árvore para que não caísse nas águas frias que riscavam o bosque. Ao chegar viu o seu nome escrito no tronco da árvore junto ao nome da menina das coxas grossas, a que habitava o bosque, por quem se apaixonara. Lembrou-se claramente que no dia em que escrevera eram duas árvores que ali viviam, contudo, naquele exato momento, só uma estava ali.

– O que aconteceu com a outra árvore? Perguntou o menino de olhos de folha à guardiã.

– Se amaram, e se tornaram uma…

O menino sorriu, chorou de alegria, e gritou.

(a continuar, algum dia…)

8 comentários sobre “Retorno ao velho altar

  1. Eu me lembro da árvore da minha infãncia.
    Ela guarda segredos diversos.
    Sem contar as vezes que fui parar no hospital por causa dos frutos dela, que eu comia com sal até dar intoxicação !
    Beijos pra você !

    1. Ori, eu sempre fui muito ligado a árvores. Na minha infância eu tinha amizade com um cajueiro. Infelizmente eu não acho a única foto que tínhamos comigo trepado nele. Eu ficava um tempão brincando sozinho ali. Gosto tanto de árvores que chego a desviar minha rota só para ver algumas determinadas árvores aqui da cidade.
      O bosque é mágico.

      Beijos.

      Ivan.

  2. Que coisa mais linda…Não pude deixar de comentar…Tenho andado distante de muita coisa, principalmente daqui e sinto muito a sua falta..muito!!
    Mas sei que está bem, feliz e isso é o que mais importa.
    A pior parte da saudade é o não saber…
    Mas o coração sente e sente bem!

    Mil beijos!!

  3. ‘Como pode sentir saudade de alguem que vivem em vc”
    Simplesmente….LINDO!!!!

    Vai continuar sim, amores de verdade, não se permitem acabar….

    bjo, meu lindo!

  4. Só posso concordar … “o bosque é mágico” !!!!
    E as árvores, sempre são testemunhas.
    Por isso gostamos tanto delas.
    Porque balançam as folhas, como entendo o que vivemos.
    Guardam tudo como tesouro.

    Ah lá em Minas, na cidade onde morei Pirapora, se te veio uma música na cabeça, é o compositor é de lá, e escreveu em homenagem a cidade.
    Lá tem uma árvore, que virou monumento histórico.
    Ela é imensa, tanto que nem dá pra subir, só se for de escada.
    E tronco dela, para ser abraçado precisa de umas 20 pessoas dando as mãos.Linda, fantástica, esplendorosa.

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