Carlos Zéfiro e Alcides Boemia

Uma meia ficção

Por Ivan Santos

Escritor, artista, socialite. Ele era conhecido por ‘Alcides Boemia’, comumente encontrado no Petisco da Vila, brincando com sua tulipa, na mesa de costume. Corria um boato de que era amigo de Carlos Zéfiro, o famoso ilustrador, e que provido do mesmo talento chegava a enviar alguns rabiscos ao velho colega. Eleutério, garçom há mais de 40 anos trabalhando no Petisco, sabe que não é de Zéfiro, mas sim de Alcides, uma enormidade de ilustrações espalhadas nos folhetins que entretêm os cavalheiros da cidade. Que seja. Por muito tempo ele trabalhou para Zéfiro, enviando um ou outro desenho lascivo que lhe dava uns trocados para a cerveja. Seu rosto era como uma caricatura, como um arlequim, e fazia lembrar-me da máscara de arlequim feita em papier mache pendurada na parede da sala da tia Margareth. Nariz crasso, arqueado, o osso da face numa projeção conspícua entre seus olhos profundos, olhos travessos, sombreados por sobrancelhas espessas e escuras.

Todavia, não olhe para seus dentes. Dentes amarelos e segmentados, uma vida inteira a serviço do tabaco, jamais demonstrou cuidado à saúde bucal, tudo isso aliado ao excesso de penicilina administrado na infância por conta de uma pneumonia recorrente.

Sorriso malvado, talvez não tal malvado assim, apenas largo e saudável, muito contagioso. Um bom ouvinte, você pode dizer pelo jeito que meneia a cabeça, como aquelas sobrancelhas abanam. Como todo bom socialite ele mantém uma constante harmonia com o ambiente que o cerca. Uma piscadinha aqui, um tapinha nas costas acolá, piadinhas, saudações e lembrança às famílias.

Mas, hoje, algo está diferente. Sentado em um canto, voltado para a parede, em honrosa solidão, algumas garrafas vazias de Original são a sua única companhia. Rabiscando esporadicamente alguns catecismos em seu bloco de papel vegetal, Alcides ignora o mundo a seu redor. O mundo o ignora também, todos sabem que ele não está de bom humor. Entediado, sem dinheiro ou sem mulher. Interromper Alcides Boemia no momento errado é pior do que cair no fundo de um poço em plena madrugada. Ele faz um movimento brusco, seu rosto ilumina,  vai até o telefone no balcão do bar e faz uma rápida chamada. Em seguida, ele sai.

Caminhando sem pressa, ele se afasta do Petisco, saindo pela Avenida 28 de setembro, enveredando por ruelas do bairro, passa, sem desviar o olhar, pela papelaria da Marlene onde deve uma boa soma em dinheiro por seus blocos de papel vegetal; o bolso esquerdo do paletó está penso, é ali que guarda os seus trocados. Ele dá uma pausa para contar, são exatos 15 mil cruzeiros, desiste de acertar as contas com Marlene, e continua caminhando, passa pela antiga fábrica Confiança, pela Companhia Ferro Carril, olha para o bonde e prefere caminhar.

Meia-calça púrpura, uma capa de camurça amarela, saltos altos, mas não vulgares, ela o aguarda na esquina. Cabelos negros, em seus vinte e poucos anos, graciosa, sofisticada.

“Olá, Alcides”, ela diz, beijando-lhe a face gentilmente e segurando-lhe as mãos. “Hoje não”, ele diz, com precisão inebriante e paulatina, “eu tenho algo diferente em mente. Venha comigo.”

Eles caminham, lentamente. Alcides está indócil, procurando por alguma coisa, olhares furtivos à direita e à esquerda. “Pronto, ali está bom”, ele diz, enquanto retira um colar de pérolas do bolso. “Sente ali, não, assim, mostre os seios, coloque esse colar, certo, perfeito.”

Ele apanha seu bloco e começa a trabalhar. Desenhando rapidamente, traços certeiros como dardos, tudo terminado em 10 minutos. “Aqui estão os seus 15 mil cruzeiros”, diz. “Eu vou caminhar com você até a estação de trem. Se o Zéfiro gostar, eu lhe pago mais 15 mil. Agora vá embora e compre algo decente para vestir.”

*****

Carlos Zéfiro é o pseudônimo do funcionário público brasileiro Alcides Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1921 – Rio de Janeiro, 5 de julho de 1992) com o qual ilustrou e publicou, durante as décadas de 50 a 70, histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por “catecismos”.

Alcides Aguiar Caminha, carioca boêmio, ilustrou e vendeu cerca de 500 trabalhos desenhados em preto e branco com tamanho de 1/4 de folha ofício e de 24 a 32 páginas que eram vendidos dissimuladamente em bancas de jornais, devido ao seu conteúdo porno-erótico, e chegaram a tiragens de 30.000 exemplares.

Os “catecismos” eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito, e impresso em diferentes gráficas em diferentes estados da Federação, gerando, inclusive, diversos imitadores. Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas. Chegou-se a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas a investigação terminou inconclusa.

Em 1992 recebeu o prêmio HQMix, pela importância de sua obra. Após sua morte teve um trabalho publicado como homenagem póstuma em 1997 na capa e no encarte do cd “Barulhinho Bom” da cantora Marisa Monte.

Casado desde os 25 anos, com Dona Serat Caminha teve 5 filhos e sempre escondeu de toda a família sua atividade paralela de desenhista e aposentou-se como funcionário público. Sua identidade somente se tornou pública em uma reportagem da Revista Playboy que foi publicada em 1991, um ano antes de sua morte. Fonte: Wikipedia

Se quiser conhecer um pouco das ilustrações de Zéfiro, clique aqui.

 

9 comentários sobre “Carlos Zéfiro e Alcides Boemia

  1. Ivan,

    Adoro a palavra “enormidade”.

    Muito bom o texto, cada vez melhor, mais escrito, mais literário.

    beijo

      1. Sou o filho mais novo, o único que ele deixava ver os desenhos. Moro em Brasilia e tenho o mesmo nome. Novamente grato pela referencia. Sds Alcides

        1. Safadeeeeeeenhooo, hein!! rsssss

          Bem, vou acreditar na sua palavra, e reforçar a minha admiração pelo seu pai, por ele ter resistido às pressões diversas e continuado com a expressão de seu trabalho, que para mim, e outros milhões, é de fato considerado uma arte.

          Grato pelas visitas, seja sempre bem vindo, e parabéns pelo legado! Espero que a família dê continuidade à obra de alguma forma. Que outras homenagens surjam, e que o gênio não seja esquecido!

          Grande abraço.

          Ivan.

          Minha irmã também mora em Brasília! 🙂

  2. Ivan, Em processo de finalização.Curta metragem e Peça Teatral sobre a Obra de Carlos Zefiro, Com estreia prevista para Abril de 2011, no Rio de Janeiro. Mais uma vez grato pela gentileza.

    Alcides

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