Haroldo Bocão

Tem hora que a falta de tempo judia demais. A falta de tempo está me matando já que não consigo fazer duas coisas que adoro, e que me fazem uma tremenda falta – Ler e escrever – Aqui bem em frente a meus olhos, a pilha de livros a serem lidos só aumenta, e as ideias de textos a serem escritos pipocam, mas aí o tempo urge e a matéria é fecunda, e a meu lado esquerdo laudas e mais laudas, versões e mais versões, o leitinho das crianças… rssss

Serve um texto antigo, lembranças de um tempo em que o tempo, eu juro, cabia e durava muito mais?

Tenho inúmeras lembranças de quando ainda eu, meus irmãos e meus pais morávamos todos juntos sob o mesmo teto. Éramos sete. Durante os nossos anos de pós-adolescência, a casa, que por si só já vivia cheia por conta do tamanho da família, estava sempre mais movimentada com a presença de outros agregados. Tinha americana fazendo intercâmbio, tinha africano fazendo intercâmbio. Tinha ‘interno-órfão’ do Colégio Militar que foi passar o natal e ficou até se formar no colégio e posteriormente na escola de oficiais da marinha mercante. Tinham as três filhas da tia Nilde os três ‘éles’ Lilian, Lara e Lívia. Por lá passaram pessoas comuns que hoje são pessoas influentes em suas “expertises” e outros que talvez ainda não se acharam na vida. Sabemos o paradeiro de alguns, mas não de todos como por exemplo do Haroldo Bocão.

Haroldo era filho de Ariosto. As pouquíssimas vezes que vi Ariosto me lembro que ele era uma figura um tanto intimidadora. Ele mancava de uma perna, falava de maneira ríspida e tinha um olhar bravio. Haroldo só tinha do pai o bocão. Haroldo era mais velho do que eu. Quando eu tinha meus 17, ele já tinha seus 22. Haroldo estudava economia, sonhava ser operador na bolsa, estagiava em um banco americano. Ele queria ser rico, mas, contraditoriamente era desapegado das coisas materiais. Ele não se importava quando usávamos suas roupas transadas, ou se eu saísse sem habilitação com sua Yamaha RDZ 125 pelas ruas do Rio. Ele era como um irmão para nós. Meu pai era um pai para ele. Haroldo tinha casa, mas a nossa era o seu lar. Ali ele até aprendeu a andar só de cueca sem reservas, assim como faziam os filhos de meus pais [minha irmã de calcinha, claro].

Apesar de ter olhos chapados e falar com excessos de gestos, Haroldo não usava droga, mas tinha o hábito nojento de comer pão dormido com cebola picada. Ele falava alto e era muito desastrado, principalmente quando queria aparecer para alguma menina.

Faz muitos anos que não vejo aquele bocão. O último evento do qual me recordo foi bem típico. A família estava toda reunida assistindo algo na TV. Além de nós somente Ekow Wilmot o negão africano que estudava arquitetura na UFRJ. A cena:  Haroldo entra [ele jamais tocava a campainha e o porteiro já não mais o anunciava], não diz nada e segue em direção à cozinha. Ouvimos o barulho das gavetas de talheres. Haroldo entra e sai dos quartos e remexe em armários e cômodas. Por fim retorna à sala e abre freneticamente todas as gavetas da arca. Em sua mão um pedaço de pão recheado de cebola. Ele se vira para todos espalhados nos sofás, suspira e diz: “Esta casa tá uma bagunça!” Vai em direção à porta e sai. Todo mundo se entreolha e cai na gargalhada.

Saudades do Haroldo Bocão…

 

3 comentários sobre “Haroldo Bocão

  1. Gostei da foto e do texto.
    Tá a procura de algum amigo perdido?
    Qualquer coisa chama s super detetive Ori. rsrsrsrsrsrs
    Bjus pra ti.

    1. Hahahahaha… eu quase que coloquei uma nota no rodapé dizendo: Ori, quer mais uma missão? hahahaha

      Mas, é melhor deixar pra lá.. Haroldo Bocão deve ser impossível.. rsss

      Bjo.

      Ivan.

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