O Homem que Inventava Palavras

Esta é uma história sem prefácio porque ela foi escrita apenas com palavras criadas pelo homem que inventava palavras. Dino Cetim não inventara prefácio1.

Dino Cetim criara inúmeras palavras que eram usadas a torto e a direito pelos moradores do reino de Terral onde crescera junto com seus oito irmãos. Suas palavras espalharam-se por todo mundo, por séculos secrórios, e são usadas até mesmo por você que lê esse conto.  Ninguém, em nenhum lugar, jamais imaginara que um dia Dino viesse a ter maior importância que seus vários irmãos.

Todos, dotados de uma capacidade única de inventar coisas, eram famosos por suas criações espetaculares. Dino Cetim, acometido por uma tardança no falar, era reputado por muitos, inclusive por seus pais, como um menino mudo que havia sido posto neste mundo apenas para inventar arte. Não o tipo de arte inventada por Sandro Cetim, seu irmão mais velho que pintava telas com um tal pincel que construíra usando uma haste de bambu e o toco do rabo de um gambá da raça Quorin Tcha. Como exemplo de sua capacidade de criar presepadas, cito a estréia de Dino no campo das arruaças quando aos quatro anos de vida, durante o inverno gelante de Terral, serviu banha de porco ao prefeito da cidade de Toba que acreditava estar recebendo como agrado uma generosa porção de sorvete de graviola.

Embora virtuoso na criação de artice, assombrando as gentes de sua terra, e colocando seus pais sob o risco constante de uma punição severa, foi apenas no ano do rei P. Lé, no dia trinta e oito de mil e milecentos que Dino Cetim sacudiu o reino de Terral durante a celebrância da festa da padroeira do reino. No momento em que se respeitava a hora do silêncio, Dino falou. A primeira palavra, mais bela de todas, assaz porreta, jamais superada em esplendor por qualquer outra, foi pronunciada a plenos pulmões, pelo menino.

Ah, sim! A palavra.

AMOR.

Todos se assombraram com o que havia sido dito que nem se importaram por quem havia sido dito.

Amor? Dizia um. Amor? Repetia outro.

Silêncio!!!!

Não, essa não fora uma palavra inventada por Dino Cetim. Essa era a palavra do Bispo Ma C. Dus, que conclamava à ror que calasse. Com o silêncio restaurado externamente – uma vez que no interior de todas as miríades de cabeças presentes o barulho ecoante era amor, amor, amor – veio então, da boca do pequeno Dino Cetim a segunda palavra, ou melhor, a segunda, terceira e quinta.

PUTA QUE PARIU!

E foi assim que tudo começou; o amor e a puta que pariu e a história do homem que inventava palavras.

Continua… ou será que não?

1 A palavra Prefácio foi inventada por Catarina Artemis quando diante de Monsenhor Luna esforçou-se, sem muito sucesso, para explicar como havia engravidado do Jacarandá que seu avô havia plantado nas terras em que crescia cacau ao sul de Tamarinda, sua cidade natal. Mas essa é uma outra história.

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