Esta noite eu vou te usar

Eu não estou assistindo (e acompanhando) a novela Gabriela. Nada contra novelas. Não. Eu apenas não tenho a disciplina para nada que é seriado. Eu não consigo estabelecer rotinas que impõem que em determinado momento, eu esteja em determinado lugar, assistindo a determinada coisa. Portanto, sou uma audiência acidental. Eu sou literalmente aquele que estava passando na sala e viu. E eu vi o Zé Wilker no papel de Coronel Jesuíno Mendonça olhar para Maitê no papel de Sinhazinha Mendonça dizer pra ela: “Mulher minha não tem indisposição quando eu a quero. Se tem dor de dente, vá ao dentista, conserte. Vá para o quarto e se prepare. Vou lhe usar”. Que se fodam as feministas, aí eu sentei e tive que ver o resto. E entre bundas, peitos, sotaques e trejeitos exagerados eu vi toda a sobra do capítulo de Gabriela naquela noite. Jorge Amado é o cara. Seria o cara apenas pela frase supramencionada. Esta noite eu vou te usar. E usou! E ai dela reclamar! Jorge Amado é o cara.
Diz a história que Jorge se retirou para um vilarejo praiano com Zélia para trabalhar (Diga-se entre parênteses: esse é também um sonho meu que não tardo a cumprir). Estando eles no tal remanso, uma criada notando que Jorge passava o dia deitado numa rede observando as conversas dos pescadores do local, perguntou à Zélia: “Dona Zélia, mas doutor Jorge num veio pra cá pra mó de trabalhar?” no que Zélia respondeu: “Mas, ele está trabalhando…” Eu sempre achei que observar as pessoas é uma forma de arte que requer dedicação, senão intoxicação.
Outra coisa que percebi é que a escolha de Juliana Paes pra fazer Gabriela não me pareceu a mais acertada. Ao contrário do que você possa estar pensando, caro leitor, não digo isso porque acho que falte talento à moça. Ela é talentosa. Muito menos digo isso porque lhe falte sensualidade. Muito pelo contrário, sobra. Tem demais. Juliana é sexy cagando. Juliana é sexy limpando o vômito de um tuberculoso. Juliana é sexy palitando os dentes careados. Juliana é sexy fazendo discurso político em defesa da foca-monge-do-mediterrâneo que está ameaçada de extinção. A Gabriela do livro não arrastava a buceta na cara de ninguém. Juliana é sensual até coberta de lama no mercado em que Seu Nacib a escolheu para ajudar na cozinha do bar Vesúvio. Portanto, ela é too much. Gabriela não era uma pirigueti. Gabriela subia no telhado pra catar a pipa e não pra mostrar a calcinha. Se é que havia uma. Pipa. Ou calcinha. Gabriela não se dava conta do frisson que causava. Gabriela só achava o turco um “moço bonito”.
Mais outra particularidade  da Juliana é que ela é muito feliz. Reparei que ela está sempre com aquela cara de menina que acabou de descobrir que tirou a nota máxima na prova de matemática e que vai ganhar um troféu no auditório da escola com a presença de todos os 2000 alunos e seus respectivos pais. Juliana está sempre com aquele riso preso de quem vai andar na montanha russa no banquinho da frente. Ela está sempre com aquela cara de quem chegou à balada e indiferente àquela fila imensa o segurança faz sinal pra ela passar na frente de todos e entrar para a área vip da casa com todos os vinte agregados que a acompanham. Tudo open bar. Ela tem aquele sorriso de quem chega ao trabalho na segunda depois que seu time se sagrou campeão brasileiro sendo que seus colegas todos apostaram dinheiro contra ele. Ela tem sempre um sorriso de vendedor do Shop Tour, de apresentador de Vídeo Show. Juliana tem a sutileza sexual do acasalamento grupal dos hipopótamos do Nilo. Too much. Gabriela de Jorge não era assim.
De qualquer maneira a gente sabe, e não dá para ignorar,  que a TV não tem mesmo como ser igual a um livro. Todavia, às vezes pode até ser melhor, mais que perfeito, como quando a gente vê a cara do Zé Wilker dizendo à Maitê: essa noite eu vou te usar. (Você deveria ter escutado a minha gargalhada quando ouvi isso. E não ponho a culpa no vinho que me acompanhava).
Novela é legal e estou aqui pensando que eu deveria ter parado mais tempo na sala quando o Leleco, o Tufão e o Jorginho conversavam à mesa enquanto tomavam cerveja e comiam farofa. Quem conhece bem o subúrbio carioca é que sabe que o texto, a cena, o ambiente e, acima de tudo, as atuações foram dignas de standing ovation!
Para coroar minha videostravaganza, hoje depois da feijoada na casa de tia Vera, eu deitado no sofá assisti o Luciano Huck naqueles quadros em que se reforma uma casa de uma família pobre, ou se você preferir um termo mais politicamente correto: uma família financeiramente impedida. Não bastassem as doses de caipirinha, a música de fundo (com um arranjo próprio para fazer até um ditador chorar), aquele mundo de gente chorando, o nariz do Luciano Huck, eu notei, ali na mesinha de cabeceira da cama do quarto novo da menina, com móveis gentilmente cedidos (cof cof cof) pela Tok Stok, um exemplar pop-up do Pequeno Príncipe. É mesmo fantástico.

9 comentários sobre “Esta noite eu vou te usar

  1. Adorei o texto, e acho que tens razão na análise da Juliana, mesmo. comparando talvez com a sónia braga, mais rústica, eu diria. a juliana é demasiado sofisticadinha, lá está, cara de quem vende apartamento e tal.

    eu nao gostaria de ouvir um gajo a dizer-me isso, mas é pq eu sou mt sensível 😉

  2. Tu me usas eu te uso, prefiro assim. Daquele jeito que ele faz é só ele usando mesmo, ontem mesmo eu achei incrível que ele subisse toda displicente do jantar e mandasse ela se deitar e foi a usar, assim, de pronto. Achei que ele devia ter um dispositivo bem bom que fizesse o negócio funcionar em menos de 10 segundos só pelo fato de ele a querer usar. Ele dispensa o tesão.

    Pois eu achei também a Gabriela muito feminista, ela estaria na Marcha das Vadias com certeza, dizendo, “o corpo é meu e eu faço o que quiser”.

    beijo!

    1. O coronel lascou-lhe a peia ontem de novo! Eu adoooro… me acabo de tanto rir. hahahahaha

      Gabriela ia usar vestidinho da Daspu… nada a ver com a ideia de Jorge, fia.. nada.

      Beijocas.

      Ivan.

        1. Eu não vejo a novela todo o dia, então não sei se o uso é diário, feito escova de dentes. Mas, todo capítulo que eu vejo, o coronelzinho usa! hahahahaha

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