O Devaneador

Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade. Clarice Lispector

Eu estou sempre divagando sobre um monte de coisas.

Uma vez eu estava tão ocupado divagando que eu faltei uma semana inteira no trabalho. Infelizmente, meu chefe não era um devaneador como eu, por isso é que eu não estou mais trabalhando para aquela empresa.
Certa feita, quando eu ainda estava empregado, eu participava de uma reunião, e como todas as reuniões corporativas são chatas, eu comecei a pensar no que aconteceria se eu de repente me apoiasse sobre a mesa e começasse a jogar charme para a Dona Eliete da contabilidade. Não que eu me sentisse atraído por uma pessoa que estava a poucos anos de se aposentar e que era tão feia que se eu tivesse soluçando era só olhar pra ela que passava. Eu só queria saber o que iria acontecer se eu fizesse aquilo. Será que ela ia corresponder? Será que os meus colegas iriam ficar chocados? Ou ainda pior, excitados? Será que eles ficariam constrangidos e dariam uma desculpa para sair da sala? Ou será que iria tudo virar um inferno e a sala de reuniões se tornaria numa grande orgia?
Uma mente inquisitiva queria saber.
Numa outra ocasião, para quebrar a monotonia do trabalho, Aarão, o meu melhor amigo no departamento, inventou um jogo chamado “Você Preferiria?” e começou a brincar comigo:
Aarão: Você preferiria ser comido por um leão ou atacado por um tubarão?
Eu: Nenhum dos dois. Resposta final!
Aarão: Você tem que escolher um dos dois.
Eu: Bem. O leão tem garras?
Aarão: Como é que um leão não teria as suas garras?
Eu: O tubarão é um tubarão elefante?
Aarão: Que diferença faz?
Eu: Dãããã… o tubarão elefante não usa os dentes.
Aarão: *suspiros* Olha, pergunta você. Me dá duas coisas e eu te digo qual eu prefiro.
Eu: Beleza. Você prefere ficar rico ou morrer tentando?
Aarão: Tem que ser duas coisas que não gostaria de fazer.
Eu: Você não disse isso.
Aarão: Eu achei que estava implícito.
Eu: Tá bom! Cagar ou largar a moita?
Aarão: Você não pegou o sentido da coisa, né? Deixa pra lá
Levou um tempo até que eu pegasse o jeito da brincadeira.
Nós jogamos esse jogo todos os dias. Como a gente não queria ser acusado de roubar o tempo da empresa, nós concordamos em manter as perguntas sempre relacionadas ao trabalho.
“Você prefere continuar nesse trabalho por mais cinco anos ou prefere estar no meio de um incêndio com noventa por cento de seu corpo coberto em chamas?”
Quando as respostas começaram a ficar fáceis demais (como, por exemplo, queimar no fogo), nós decidimos aumentar o nível.
“Você prefere comer a Dona Eliete da contabilidade, ou a Dona Anita do marketing?”
Para te dar uma ideia com que tipo de questão estávamos lidando, levou três dias – inclusive perdendo a nossa hora do almoço (que compensamos saindo mais cedo) – para chegarmos a um veredito.
Eu achei que seria justo se a gente contasse a nossa decisão para as duas finalistas. Eu pedi à dona Eliete e à dona Anita que nos encontrassem na sala de reuniões.
Eu: Bem, em primeiro lugar nós queremos que vocês saibam que não foi fácil chegar a essa decisão. Vocês duas são mulheres super legais, e eu tenho certeza que seriam capazes de fazer algum homem desesperado muito feliz.
Dona Eliete: Do que se trata?
Eu: Calma, coroa. Você ainda não morreu.
*Virando para Dona Anita*
Bem, Dona Anita, a senhora tem uma grande personalidade, mas a gente acha que a senhora exagera no laquê.
E continuamos descrevendo sobre mais algumas virtudes e defeitos das duas. Finalmente chegou a hora de anunciar a vencedora. Para tornar a experiência um pouco mais emocionante angustiante eu decidi usar uma técnica que aprendi assistindo a ‘Project Runway’ e ‘So You Think You Can Dance’. Funciona assim: sabe quando dois competidores vão para a eliminação e o apresentador se vira para uma das pessoas e faz parecer que ela é a vencedora? Em seguida, no último minuto ela solta um monte de duplas negativas confusas que culminam com o perdedor indo pra casa pra cortar os pulsos e os telespectadores se perguntando que merda aconteceu?
Eu acho que esse método também funciona na minha vida pessoal. Por exemplo, digamos que eu esteja numa loja tentando decidir qual chocolate comprar. Para tornar a tarefa mais emocionante, eu ajo como se fosse escolher o Chokito, e aí no último minuto eu aponto para o Prestígio e digo: “Prestígio, você não pode não não ir. Oh Chokito, eu sinto muito em dizer “Valeu””!
Em face do meu apego nada saudável a objetos inanimados eu acabo comprando os dois. E também um pacote de Confeti. Felizmente, minha natureza empática não se estende a seres humanos.
Então, eu fiz parecer que íamos escolher dona Anita. Aí eu me virei e premiei a dona Eliete com o título da “Mulher que a Gente Comeria se Tivéssemos que Escolher Entre Ela e a Dona Anita”.
Dona Anita não me pareceu muito feliz com o resultado, mas pelo menos ela já era casada. Quanto à dona Eliete, não passa um dia sequer que eu não me vejo divagando sobre a pessoa dela. Não porque eu realmente me importe, mas sim, como eu disse antes, porque eu sou um devaneador.

Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.
Clarice Lispector

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