Porque aqui, você decide!

Chapéu Borsalino em feltro preto, inclinado sobre seus olhos e formando uma sombra em sua face, as duas palas enquadradas pela janela atrás. Seu ornato possui a marca de uma obsessão doentia pelo Zorro. Casaco, calças, tudo preto. Um relógio de ouro cintila por baixo da manga. Ele usava uma escarfe vermelha, como se quisesse provar alguma coisa. Eu posso ser um senhor suspeito todo vestido em preto, mas eu tenho uma escarfe vermelha. Engula isso!

Encostado de forma avacalhada no balcão do Outback, ambivalente em um sobretudo, um rabo de cavalo grisalho escorrendo por suas costas. Seu olhar está diabolicamente carregado, resvalando os olhos como se estivesse conspirando uma vingança.  Ou talvez ele seja um homem em fuga. Assassino? Matador? Charlatão? Ladrão de jóias? Um homem cujos crimes não o deixam para trás. Agora eu consigo entender, enxergo tudo…

Conhecido no submundo como ‘Chapéu Preto’, ele iniciou sua carreira muito cedo. Quando ainda engatinhava, roubava biscoitos do carrinho de compras de sua mãe. Na adolescência, em seu primeiro emprego de office-boy, roubava cigarros da gaveta do chefe antes de sair para fazer entregas. Sofreu bullying na escola por causa de seu rosto fino invulgar, seus óculos de nerd e pelo hábito irritante de girar os polegares, um ao redor do outro, num tipo de dança cíclica bizarra. Sua prática de roubo encoberto concedia-lhe uma sensação de autovalor e realização. Isso o transformou de um homem com cacoetes em um caguete canalha. Eventualmente ele abandonou o tique de girar os dedos.

Mas, foi a sua avó que o firmou ainda mais no caminho do crime, uma prolífica batedora de carteira que praticava seu comércio quase aos noventa anos. Uma mulher pequena, menor que um rato.

“Escute”, dizia a velha enrugada usando um gorrinho de tricô surrado na cabeça, seus pequeninos olhos penetrantes brilhando com astúcia: “quanto mais velho você fica, menos eles suspeitarão de você. Quem suspeitaria de uma velhinha amável como eu? Gostou do meu Rolex? Tome, ele é seu. O silêncio vale ouro. Eu tricotei essa escarfe para você. Não quero que você pegue um resfriado, meu docinho. Desculpe pela cor, mas só sobrou lã vermelha. Quer um pouquinho de sopa de batata? Afanei as batatas no quintal do vizinho. Ha! Aquele otário sempre vem aqui, reclamar que estão roubando a horta dele.”

Daí começou sua escalada. Pequenos roubos em lojas no começo. Desodorantes, hidratantes, Confetis,  borrachas com cheirinho. Depois passou para os itens eletrônicos, negociando toca-discos no mercado negro. Deleitando-se no sucesso em pequena escala, passou a roubar bancos, joalherias, quadros e castiçais antigos em casas suntuosas. Ele se envolveu com gente da pesada, formou uma gangue e mediante orientação de sua avó, logo se tornou uma das mentes criminosas mais respeitadas no sul e sudeste do país. Junto com a fama e o sucesso vieram a paranóia e o stress. O Borsalino estava atochado em sua cabeça de maneira exagerada, porém também conveniente, escondendo uma gigantesca verruga na testa que, tristemente, havia sido exposta por sua calvície galopante.

E ei-lo aqui, encostado no bar do Outback, cheio de medo e consciente de que seu passado não o abandona.

Ou talvez ele seja apenas um camarada inocente e entediado com essa chuva que não para lá fora. Eu deixo você decidir.

* * * * * * * *

10 comentários sobre “Porque aqui, você decide!

    1. Ori, viu como é? Se a gente pega o nosso senso de observação e junta com as nossas pirações, julgamentos, preconceitos, todas essas coisas que até seres superiores [como eu] têm, a gente acaba escrevendo alguma coisa divertida… rss.. experimente!

      Beijoquitas.

      Ivan.

    2. Sou apenas aspirante a escritora.
      Ainda estou longe do ser Superior aí, ah!
      Mas eu chego lá.
      Mas já sai do bloqueio, escrevi hoje, depois de quase 1 semana.
      Mas só vou postar na segunda.
      Intéeeeeeee.
      Troquei o e-mail para ver a cara nova. kkkkkkk

  1. Ivanzito..fiquei confusa!!!!
    Primeiro, adorei o seu jeito de expressar o que se passa nessa sua cachola e a forma de captar os detalhes que deu vida ao texto, parecia q eu estava ali com vc..ops, com ele…
    me confundi com a frase…enfim..rsrsrs

    besos!!!!

  2. Que confusão, que nada, meninas,

    Não lhes parece claro que a resposta para aquela pergunta é a mesma resposta daquela pergunta?????

    kkkkkkkk

    Bjs, Zinhaaaa

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